Alberto Cairo, Mariana Santos e Sandra Crucianelli no Programa de Jornalismo de Dados do IICS

Mariana Santos
Mariana Santos

Mariana Santos (Fusion, Chicas Poderosas, ex-The Guardian), Alberto Cairo (Universidade de Miami), Adriana Garcia (Knight, Orbitalab, ex-Reuters), Gustavo Faleiros (InfoAmazônia, Knight), Alessandro Alvim (O Globo), Sandra Crucianelli (Knight), Marcelo Soares (Folha de S. Paulo), Érica Rolim (ISE), Daniel Bramatti (Estadão Dados), Fred Di Giácomo (Glück Project, ex-Abril) e Lyn Januzzi (Grupo RPC) são os primeiros professores confirmados do Programa de Jornalismo de Dados e Visualização que o IICS vai realizar em São Paulo na semana de 24 a 28 de novembro de 2014.

O curso é destinado a profissionais de jornalismo, design e programação que façam parte ou pretendam integrar equipes multidisciplinares que atuem em Redações ou em outras empresas ou instituições que trabalhem com Dados e Visualização. O programa multidisciplinar trata dos principais conceitos e ferramentas para apuração e interpretação de dados, uso de dados públicos e extração de dados de redes sociais, NewsGames, princípios de design aplicados à visualização, desafios da visualização e infografia modernas e a importancia do texto, do jornalismo e da narrativa em visualização.

Temas

Jornalismo de Dados
Técnicas e ferramentas para extração e análise de dados
Transparência e acesso à informação pública
Noções de Estatística para Jornalistas
Questões Jurídicas para uso de dados
Introdução à visualização
Novos formatos para a Infografia
Bases de Dados de Redes Sociais
Princípios de design aplicados a visualização
Gráficos estatísticos
Mapas interativos
Texto e narrativa em visualização
Workshop de animação
Formação de equipes multidisciplinares
Design Thinking

As isncrições estão abertas e podem ser feitas pela página do curso no site do Instituto Internacional de Ciências Sociais – IICS

Alberto Cairo
Alberto Cairo

Nova turma para o Master em Jornalismo Digital 2015

O IICS formou no dia 13 de setembro a turma de 2014 do Master em Jornalismo Digital da qual fizeram parte profissionais do G1, UOL, R7, Estadão, Correio Braziliense, SBT, TV Tribuna, Rede Amazônica, A Gazeta, Gazeta do Povo, Grupo RIC, WebMotors, Canal Rural, Diário de Pernambuco, Agora São Paulo e Jornalistas & Cia.

Turma de 2014 do Master em Jornalismo Digital 2014
Turma de 2014 do Master em Jornalismo Digital 2014

Entre os professores deste ano estavam Ramón Salaverría (Universidade de Navarra), Gumersindo Lafuente (ex-El País), Alberto Cairo (Universidade de Miami), Hugo Pardo (Outliers), Ana Brambilla, Marcelo Coutinho (Terra), Luciane Aquino (Terra), Gustavo Faleiros (InfoAmazônia), Guilherme Pereira (Gazeta do Povo), Adriana Garcia (Knight), Fabiana Zanni (Pearson), Luis Gracioli, Caíque Severo, Altair Nobre, Fernanda Leonardi, Rafael Ruiz, Fred Di Giacomo, Alessandro Alvim (O Globo), Marcelo Soares (Folha de S. Paulo), Lyn Jannuzzi (RPC), Edson Rossi (Abril), Matias Attwell (Terra), Nivia Carvalho, Adriana Barsotti, Sandra Gonçalves (Gazeta do Povo), Leo Dresch, Diogo Zanatta (ISE), Cesar Bullara (ISE), Eliseu Barreira Júnior (TV Globo) e Daniel Bramatti (Estadão).

Nas 160 horas de curso foram realizadas conferências com Bruno Venditti (Band) e Michelle Raphaelli (Rádio Gaúcha), Claudia Belfort (/Ponte) e Ricardo Anderáos (Brasil Post).

E agora já estão abertas as inscrições para o programa de 2015. Abaixo, o programa completo.

A participação do leitor

Disqus - ferramenta para gestão de comentários

A interatividade é uma das mais marcantes características do Jornalismo Digital principalmente pela possibilidade de interação pelo próprio meio. Esse, porém, é um tema sempre em aberto, que não se define, que não se consolida. Isso ocorre por ao menos duas razões: as redes sociais aproveitaram essa indecisão e se transformaram no espaço de opinião das audiências e a falta de convicção dos produtores de conteúdo em geral sobre a importância de abrir e fazer a gestão dos espaços de convivência com o público.

Muitos editores alegam que a baixa qualidade do que é postado pelos leitores é uma razão suficiente para que os espaços de comentários sejam fechados. Mas muitos deles cobram da audiência aquilo que não oferecem em suas homes. A luta por audiência a qualquer preço, que faz com que os sites publiquem conteúdos sensacionalistas para atrair um grande volume de público, uma audiência volátil que não cria laços com a marca ou o produto, certamente ajuda a atrair comentaristas descompromissados com a qualidade do debate.

A participação do leitor, os prós e contras, os desafios, ferramentas e alguns casos de veículos que resolveram ou se encaminham para uma boa solução desse tema constam da apresentação que fiz para os alunos do Master em Jornalismo Digital do IICS agora em agosto e que reproduzo abaixo para os interessados.

Eliane Brum e o triunfo das eu.com

eliane brum
Eliane Brum (Reprodução Facebook)

Uma década atrás, quando um colunista saía de um veículo de comunicação, ele deixava para trás o nome de sua coluna, as matrizes do conteúdo que produziu e, principalmente, seu público. Para os veículos, bastava achar um nome que o substituísse à altura. O jornalista era dependente e, de certo modo, refém do seu veículo de comunicação.

De lá para cá isso mudou, embora ainda exista nas Redações quem não perceba. A jornalista e documentarista Eliane Brum é um exemplo perfeito e recente dessa mudança. Nessa última década, ela foi repórter e, nos últimos anos, colunista do site da revista Época. Os textos de Eliane conquistaram um público fiel, formado não mais por leitores passivos, mas por leitores ativos que passaram a compartilhar suas colunas nas redes sociais. Uma multidão de 235 mil leitores curtiu uma dessas colunas – Meu filho, você não merece nada – no Facebook. Paralelo a isso, ela criou seu canal no Twitter e uma página no Facebook, o que lhe garante um público conectado de mais 50 mil leitores.

Há algumas semanas, Eliane deixou o site de Época. Na internet, quem abre mão de profissionais como Eliane Brum, corre o risco de perder também o público que os lê. No Jornalismo digital há um grupo cada vez mais numeroso de profissionais que se tornaram insubstituíveis porque levam consigo seus públicos. Ela faz parte desse time.

Na semana passada, Eliane começou a publicar uma nova coluna no site brasileiro do jornal espanhol El País, lançado na terça-feira. Mesmo publicando num site estreante e ainda pouco conhecido, ela já contabilizava no dia seguinte mais de 20 mil compartilhamentos no Facebook. Sua rede continua ativa e seu público se reorienta para continuar a segui-la. Em paralelo, suas colunas anteriores ainda estão disponíveis na web, seu acervo permanece acessível e criando mais seguidores. Os novos e os habituais leitores encontrarão facilmente o novo espaço da jornalista e se mostrarão dispostos a ler seus textos enquanto ela estiver elaborando conteúdos que lhes interessem.

Eu.com

Assim como Eliane Brum, há inúmeros casos de profissionais que conseguem nas redes sociais um número de seguidores superior aos que conseguem alcançar as marcas dos veículos em que atuam. É o caso de profissionais como William Bonner, que tem no Twitter cinco vezes o número de seguidores do canal do Jornal Nacional, ou de Luciano Huck, que tem bem mais seguidores que o perfil oficial da Rede Globo.

E deveria ser o caso de todos os profissionais de comunicação. O jornalista não deve perder a oportunidade de levar sua marca pessoal para a internet. Mais do que isso, ele deveria planejar a sua presença e atuação na web, criar relações com seu público e usar as redes sociais como instrumento para fortalecer sua marca. Seus seguidores serão seu público permanente, onde quer que ele atue. Essa estratégia não necessariamente deve estar apartada do veículo em que trabalha. Pelo contrário, a divulgação dos conteúdos na rede de relacionamento do jornalista ajuda o jornal, rádio, site ou TV enquanto os dois, profissional e empresa, forem parceiros.

Compare

William Bonner  realwbonner  no Twitter

Jornal Nacional  JNTVGloboBrasil  no Twitter

Luciano Huck  LucianoHuck  no Twitter

Globo  rede_globo  no Twitter

Lulu é um sistema de reputação mais do que invasão da privacidade

Lulu  First Ever App for GirlsPrivacidade é um bem que está mais em baixa que as ações de Eike Batista.

A privacidade como a imaginávamos ou o controle do que é privado, a propriedade das informações a nosso respeito, só é possível naquilo que é íntimo, absolutamente individual e jamais compartilhado. E talvez sempre tenha sido assim. A falta de registros, a disseminação velada de informações a nosso respeito, à nossa revelia e sem que soubéssemos, criou uma ilusão de privacidade que se desfaz numa sociedade de indivíduos conectados por redes sociais. Agora tudo se registra.

Lulu, o aplicativo, é só mais um choque dessa realidade. Ironicamente apresentado como uma “rede privada”, o aplicativo possibilita às meninas registrar, levar a público, sem culpa, o que já compartilhavam em pequenos grupos, o que jamais foi privado.

As redes sociais funcionam como aceleradores de partículas e, dependendo da sensacionalidade do caso, podem criar uma explosão. E é preciso saber lidar com explosivos.

Eu sei o que vocês fizeram na noite passada

Não se controla aquilo que se pensava íntimo se esse momento foi compartilhado, mesmo que com uma única pessoa. E há ainda menos garantia de preservação quando o contrato se estabelece por razões ou motivações emocionais. E é esse o caso do aplicativo.

Lulu valoriza a #hashtag como rótulo, com toda a carga de graça ou preconceito que isso permite, e vai além. Com a possibilidade de dar pontos aos rapazes, as Luluzinhas desestabilizaram o clube do Bolinha. Lulu é um sistema de reputação, essa sim a ação valorizada e com tendência de alta.

A reputação é o novo valor que se sobrepõe à privacidade. E isso pode ser bom, mas nossa geração vai pagar pelo seu histórico, pelo seu desleixo, porque as regras mudaram durante o jogo. Nós não fomos vacinados para enfrentar a revelação das nossas fraquezas.

Nossos filhos saberão lidar melhor com essa realidade se os preparamos para viver em um mundo mais respeitoso, numa sociedade em que as responsabilidades serão cobradas com mais intensidade e a ética determine ou seja a base das relações entre os indivíduos e nas relações desses com o que é público.

Por um Lulu da política

Genoino
Genoíno no Lulu, cria do Kibeloco

Depois das manifestações de junho, escrevi aqui sobre as novas formas de participação e representatividade política que poderíamos vislumbrar no horizonte. Naquela ocasião, citei Joaquim Barbosa e a referência que ele fez a um recall de representantes.

Nós já somos fiscais do Sarney, mas também da reputação do José, da Maria, da Alice, do Benedito… Logo teremos o Lulu da política, não um aplicativo, mas um sistema de reputação onde poderemos rotular as coisas boas e más, dar notas e verificar o histórico ou em tempo real a avaliação de nossos representantes.

A sensação de um aplicativo como Lulu impõe à sociedade uma discussão sobre o uso de ferramentas de reputação. A experiência de uso traz à tona os benefícios, riscos e danos que um sistema como esse proporciona. E esse exercício cotidiano nos levará a uma maturidade que nos permita usar sistemas semelhantes como apoio à cidadania.

E continuará cabendo ao cidadão o valor da nota que ele dará ao representante rotulado por hashtags como #RoubaMasFaz. No seu íntimo, o indivíduo saberá se esse sujeito o representa ou não.

Talk of the town

Google Trends
Buscas por “app lulu” no Brasil nos últimos 30 dias [Google trends]

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Relive – a história revivida em tempo real

Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos
Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos

O público reconhece há muito tempo o valor dos acervos digitais ou digitalizados dos meios de comunicação. Para quem tem dúvida, sugiro um pequeno exercício: basta comparar o número de publicações em um dia com o número de conteúdos diferentes acessados no mesmo período. Se você não tem como confirmar isso, darei um número já medido em diversos veículos e que pode servir como uma média confiável: num período de 24 horas, para cada notícia produzida e lida nesse mesmo dia outras 60 do acervo são acessadas.

Se os leitores já percebiam essa riqueza, faltava aos jornalistas e aos meios de comunicação valorizarem aquilo que já não é mais notícia, mas é conteúdo, contexto e história.

A emissora americana CBS já havia oferecido em 2012, para os leitores de seu aplicativo para o iPad, a íntegra do célebre debate televisivo de 1960 entre Nixon e JFK na mesma tela em que reproduzia ao vivo o debate entre Barack Obama e Mitt Romney. No próximo dia 22 de novembro, o site da CBS News irá reproduzir na íntegra os quatro dias de transmissão da cobertura do assassinado de John Kennedy. Agora, 50 anos depois, os americanos poderão acompanhar minuto a minuto o fluxo de informações que se seguiu à morte do presidente americano. É a história revivida numa simulação de tempo real.

Assista: Sneak peek: As it Happened: John F. Kennedy 50 Years

O “Relive” não é uma novidade. Linhas do tempo no Twitter e no Facebook já recontaram a história do Titanic e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Esta ainda está sendo contada no Twitter como se estivesse acontecendo hoje, agora.

Neste caso da CBS, tenho a esperança que os profissionais de comunicação despertem para o valor dos acervos. Acompanhar o trabalho dos colegas americanos e (re)ver Walter Cronkite em ação será excitante para os jornalistas e talvez coloque de vez o passado na agenda. Arrastar o conteúdo de um fato histórico para uma outra página do calendário é só uma das possibilidades do acervo. No cotidiano da elaboração da notícia, dos conteúdos, o acervo é um aliado do qual não se pode abrir mão. Na fragmentação da internet, o contexto é fundamental; Quando não há grades de programação e uma periodicidade a obedecer, a internet subverte a noção de tempo e exige a presença do acervo para situar o leitor e dar um melhor entendimento dos contextos.

Pena que a imprensa que tanto reclama quando o acesso a dados públicos é limitado a arquivos .PDF não tenha a mesma exigência com a facilidade de acesso aos seus próprios acervos. O descuido com a classificação dos arquivos, formatos, e a manutenção de acervos em bases distintas continua sendo uma barreira para os leitores. Quem sabe, em breve, se torne um desafio para os comunicadores.

O mundo real em tempo real

Foto de João Pina sobre os protestos no Brasil publicada na New Yorker

A perplexidade diante das manifestações que tomaram ruas e cidades brasileiras nos últimos dias tem alguma explicação na nossa insistência em tentar analisá-las com as referências que tínhamos – e que já não mais se aplicam – e na nossa incapacidade de refletir sobre o valor da experimentação.

Queremos aplicar o que está ocorrendo ao nosso modelo mental já estabelecido. Queremos consolidar, queremos fatos concretos, sólidos, quando o que está acontecendo é líquido, é fluxo e contrafluxo. Buscamos lideranças, pessoas com autoridade, com rosto e passado, que possam nos dizer o que tudo significa, para onde as coisas vão, o que será o amanhã… Não sabemos lidar com o que não é liderado. O que fazer quando as fontes também são líquidas, que aspas usar nesse universo de cartazes?

Algumas chaves para o entendimento estão na experimentação. Passamos muito tempo tentando colocar em dimensões diferentes as redes virtuais e as redes reais. Menosprezamos as redes sociais como espaço de exercício da cidadania e não prestamos a devida atenção ao que ali se experimentava. Agora, vemos que não são dois mundos. As redes virtuais são somente ferramentas a serviço de cada um de nós, são canais por onde corre e se multiplica nossa interação com o mundo e com as pessoas que nos cercam e flui o que registramos das nossas vidas, nossas opiniões, nossas manifestações.

TwitterParade – aplicativo japonês que gerava passeatas a partir de hashtags ou listas do Twitter

Nas ruas, as manifestações não têm uma única liderança, não têm um único objetivo e nem foco específico. As pessoas conduzem cartazes com protestos, reivindicações ou desejos. Os temas se misturam, alguns são contraditórios, mas todos são legítimos. Qual a diferença da rua para sua timeline no Twitter ou no Facebook?

A experimentação ajuda no amadurecimento. Foi a convivência com o tempo real e a experiência de publicação de conteúdo próprio nas redes virtuais que criou o ambiente propício ao jornalismo em tempo real e ao jornalismo participativo.

A velocidade com que as pessoas se aglutinam e os grupos se dissolvem também nos deixa atônitos. Não percebemos que as redes sociais são somente uma base de conexão e que nelas podemos criar comunidades, que surgem e somem num piscar de olhos. As pessoas trouxeram para as ruas a experiência de comunidades efêmeras que já viviam nas redes sociais. Cada dia do movimento nas ruas era diferente. Cada dia era uma comunidade que se construía muito rapidamente e se dissolvia depois de algumas horas. Talvez não seja necessário perguntar: e agora, para onde vai esse movimento? No que isso vai dar? Já deu.

As manifestações geraram mais experimentação e deixam algumas reflexões. Uma delas é o modelo de representação política. Num mundo em tempo real, em que boa parte das pessoas já têm identidades digitais, que convive com mudanças rápidas de fluxo, conexões globais e no qual é possível medir a temperatura e a pressão da rede a todo o momento, o modelo atual de representação me parece estar em xeque. Não é a toa que “não me representa” passou a ser um termo cada vez mais usado na rede e nas ruas e nesse final de semana o governador Tarso Genro (PT-RS) já falasse em candidaturas avulsas, sem partido.