Toda a informação do mundo sob medida para um único leitor: você

Quando vai às compras, antes de fazer sua própria opção, você se depara com escolhas já feitas por quem produziu um determinado bem. Há nessas escolhas prévias uma tentativa de encontrar um padrão que aproxime ou adeque o bem ao seu gosto ou a sua necessidade. Num restaurante, se quiser pedir um vinho, é possível que sua primeira atitude seja procurar entre os comensais alguém que divida uma garrafa. Isso porque alguém definiu antes que o padrão para o vinho deveria ser uma garrafa de 750 ml. Se não encontrar um parceiro, é possível que você opte por outra bebida,o que não o deixará totalmente satisfeito. Ainda no restaurante, as opções do cardápio dificilmente virão à mesa na quantidade exata de seu apetite ou somente com ingredientes que você aprecie. Há inúmeros outros exemplos. Sua necessidade está quase sempre à mercê de pacotes preparados por pessoas que são especialistas ou que tentam adequá-los a uma média de mercado. Ou seja, tudo passa previamente por um editor.

O consumo de informação segue uma linha parecida. Ao comprar uma revista ou um jornal, você leva um pacote. Seu interesse pode ser somente o noticiário de política, mas você se obriga a levar os classificados de imóveis; mesmo que queira só saber o que passa no cinema, se obriga a levar o noticiário de esportes, muitas vezes com um destaque para um time que nem é o seu.

A internet, no entanto, segue uma lógica inversa. Ao fragmentar todo o seu conteúdo, a web permite ao próprio consumidor a escolha do que ele vai acessar e abolir a ideia do pacote, se ele assim desejar. O leitor tem livre arbítrio e o poder para fazer suas escolhas, determinar sua experiência de navegação, como se fosse o único consumidor de toda a informação disponível. Ele pode optar por:

  1. navegar por uma internet fragmentada, sem hierarquia, em que um link leva a outro, sem compromisso com marcas;
  2. acessar a rede pelos portais, que tem conteúdos selecionados e hierarquizados por um editor, mas que ainda garantem ao leitor algumas escolhas. Cabem aqui os conteúdos selecionados por curadoria;
  3. entrar nos ambientes fechados de edições restritas ou em aplicativos, que, no caso dos veículos de informação, imitam a experiência analógica, com conteúdo, hierarquia e ordem pré-definidos por um editor. Nesse caso, resta ao leitor somente uma decisão: ler ou não ler.
Flipboard para iPhone

O fantástico da internet é que essas três experiências não são excludentes. Pelo contrário. Elas podem ser combinadas a qualquer momento, dependendo do gosto do leitor. A combinação é ótima porque a navegação aleatória pode nos afastar de temas importantes que o jornalismo consegue filtrar; o acesso pelo que foi filtrado pode diminuir o fascínio da descoberta de conteúdos produzidos por milhões de fontes diferentes.

A lógica da internet e as experiências diversas de navegação foram bem absorvidas por um serviço já disponível na web antes da chegada dos tablets, mas que ganhou maior relevância com a popularização dos computadores de mão: os agregadores. Esses aplicativos que dão ao leitor o poder de escolha de fontes e temas de seu interesse e exibem os conteúdos em formatos de revistas digitais estão se transformando nos novos portais de ingresso à internet.

Agregadores como Netvibes, Google Reader, Feedly, Evri e muitos outros já eram bem conhecidos, mas usados por um público com mais intimidade com a web, antes da chegada dos tablets. O lançamento do iPad foi a base para que os agregadores mostrassem o potencial desse tipo de serviço. O Flipboard foi o primeiro a transformar os links em uma revista digital atrativa, fácil de ler e de compartilhar. Ou seja, buscou no impresso a beleza gráfica e não a experiência de uso. Não tardou e o serviço começou a fechar parcerias com veículos de comunicação interessados em gerar tráfego para seus sites. O Zite, um serviço mais recente, que se apoia na experiência e nos gostos do usuário para oferecer um conteúdo cada vez mais adequado ao leitor, veio depois. Em 2011, a CNN, interessada na tecnologia de personalização por trás do aplicativo, comprou o Zite por US$ 20 mi.

Para os tablets já há muitas opções de agregadores [ou Social Readers] além do Flipboard e Zite. Evri e Feedly criaram suas versões para tablet e surgiram outros como Livestand, Flud, Pulse, Trove, Smartr News, Trapit e Spatik.

Conforme amadurece a experiência de uso, os leitores vão ficando mais confortáveis com a personalização e, ao descobrir suas vantagens, começam a aproveitar melhor o tempo usado para navegar na internet para descobrir conteúdos de seu interesse produzidos por fontes nem sempre conhecidas, o que torna a experiência mais fascinante.

O sucesso dos agregadores está no resgate de uma das características mais fortes da internet, a personalização, que dá ao leitor a ideia de que ele é único, de que todos estão falando com ele e para ele. Coisa que a mídia de massa teve dificuldades para entender. Será tarde demais?

Um comentário sobre “Toda a informação do mundo sob medida para um único leitor: você

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *