Lulu e os sistema de reputação

Lulu  First Ever App for GirlsPrivacidade é um bem que está mais em baixa que as ações de Eike Batista.

A privacidade como a imaginávamos ou o controle do que é privado, a propriedade das informações a nosso respeito, só é possível naquilo que é íntimo, absolutamente individual e jamais compartilhado. E talvez sempre tenha sido assim. A falta de registros, a disseminação velada de informações a nosso respeito, à nossa revelia e sem que soubéssemos, criou uma ilusão de privacidade que se desfaz numa sociedade de indivíduos conectados por redes sociais. Agora tudo se registra.

Lulu, o aplicativo, é só mais um choque dessa realidade. Ironicamente apresentado como uma “rede privada”, o aplicativo possibilita às meninas registrar, levar a público, sem culpa, o que já compartilhavam em pequenos grupos, o que jamais foi privado.

As redes sociais funcionam como aceleradores de partículas e, dependendo da sensacionalidade do caso, podem criar uma explosão. E é preciso saber lidar com explosivos.

Eu sei o que vocês fizeram na noite passada

Não se controla aquilo que se pensava íntimo se esse momento foi compartilhado, mesmo que com uma única pessoa. E há ainda menos garantia de preservação quando o contrato se estabelece por razões ou motivações emocionais. E é esse o caso do aplicativo.

Lulu valoriza a #hashtag como rótulo, com toda a carga de graça ou preconceito que isso permite, e vai além. Com a possibilidade de dar pontos aos rapazes, as Luluzinhas desestabilizaram o clube do Bolinha. Lulu é um sistema de reputação, essa sim a ação valorizada e com tendência de alta.

A reputação é o novo valor que se sobrepõe à privacidade. E isso pode ser bom, mas nossa geração vai pagar pelo seu histórico, pelo seu desleixo, porque as regras mudaram durante o jogo. Nós não fomos vacinados para enfrentar a revelação das nossas fraquezas.

Nossos filhos saberão lidar melhor com essa realidade se os preparamos para viver em um mundo mais respeitoso, numa sociedade em que as responsabilidades serão cobradas com mais intensidade e a ética determine ou seja a base das relações entre os indivíduos e nas relações desses com o que é público.

Por um Lulu da política

Genoino
Genoíno no Lulu, cria do Kibeloco

Depois das manifestações de junho, escrevi aqui sobre as novas formas de participação e representatividade política que poderíamos vislumbrar no horizonte. Naquela ocasião, citei Joaquim Barbosa e a referência que ele fez a um recall de representantes.

Nós já somos fiscais do Sarney, mas também da reputação do José, da Maria, da Alice, do Benedito… Logo teremos o Lulu da política, não um aplicativo, mas um sistema de reputação onde poderemos rotular as coisas boas e más, dar notas e verificar o histórico ou em tempo real a avaliação de nossos representantes.

A sensação de um aplicativo como Lulu impõe à sociedade uma discussão sobre o uso de ferramentas de reputação. A experiência de uso traz à tona os benefícios, riscos e danos que um sistema como esse proporciona. E esse exercício cotidiano nos levará a uma maturidade que nos permita usar sistemas semelhantes como apoio à cidadania.

E continuará cabendo ao cidadão o valor da nota que ele dará ao representante rotulado por hashtags como #RoubaMasFaz. No seu íntimo, o indivíduo saberá se esse sujeito o representa ou não.

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Relive – a história revivida em tempo real

Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos
Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos

O público reconhece há muito tempo o valor dos acervos digitais ou digitalizados dos meios de comunicação. Para quem tem dúvida, sugiro um pequeno exercício: basta comparar o número de publicações em um dia com o número de conteúdos diferentes acessados no mesmo período. Se você não tem como confirmar isso, darei um número já medido em diversos veículos e que pode servir como uma média confiável: num período de 24 horas, para cada notícia produzida e lida nesse mesmo dia outras 60 do acervo são acessadas.

Se os leitores já percebiam essa riqueza, faltava aos jornalistas e aos meios de comunicação valorizarem aquilo que já não é mais notícia, mas é conteúdo, contexto e história.

A emissora americana CBS já havia oferecido em 2012, para os leitores de seu aplicativo para o iPad, a íntegra do célebre debate televisivo de 1960 entre Nixon e JFK na mesma tela em que reproduzia ao vivo o debate entre Barack Obama e Mitt Romney. No próximo dia 22 de novembro, o site da CBS News irá reproduzir na íntegra os quatro dias de transmissão da cobertura do assassinado de John Kennedy. Agora, 50 anos depois, os americanos poderão acompanhar minuto a minuto o fluxo de informações que se seguiu à morte do presidente americano. É a história revivida numa simulação de tempo real.

Assista: Sneak peek: As it Happened: John F. Kennedy 50 Years

O “Relive” não é uma novidade. Linhas do tempo no Twitter e no Facebook já recontaram a história do Titanic e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Esta ainda está sendo contada no Twitter como se estivesse acontecendo hoje, agora.

Neste caso da CBS, tenho a esperança que os profissionais de comunicação despertem para o valor dos acervos. Acompanhar o trabalho dos colegas americanos e (re)ver Walter Cronkite em ação será excitante para os jornalistas e talvez coloque de vez o passado na agenda. Arrastar o conteúdo de um fato histórico para uma outra página do calendário é só uma das possibilidades do acervo. No cotidiano da elaboração da notícia, dos conteúdos, o acervo é um aliado do qual não se pode abrir mão. Na fragmentação da internet, o contexto é fundamental; Quando não há grades de programação e uma periodicidade a obedecer, a internet subverte a noção de tempo e exige a presença do acervo para situar o leitor e dar um melhor entendimento dos contextos.

Pena que a imprensa que tanto reclama quando o acesso a dados públicos é limitado a arquivos .PDF não tenha a mesma exigência com a facilidade de acesso aos seus próprios acervos. O descuido com a classificação dos arquivos, formatos, e a manutenção de acervos em bases distintas continua sendo uma barreira para os leitores. Quem sabe, em breve, se torne um desafio para os comunicadores.

O mundo real em tempo real

Foto de João Pina sobre os protestos no Brasil publicada na New Yorker

A perplexidade diante das manifestações que tomaram ruas e cidades brasileiras nos últimos dias tem alguma explicação na nossa insistência em tentar analisá-las com as referências que tínhamos – e que já não mais se aplicam – e na nossa incapacidade de refletir sobre o valor da experimentação.

Queremos aplicar o que está ocorrendo ao nosso modelo mental já estabelecido. Queremos consolidar, queremos fatos concretos, sólidos, quando o que está acontecendo é líquido, é fluxo e contrafluxo. Buscamos lideranças, pessoas com autoridade, com rosto e passado, que possam nos dizer o que tudo significa, para onde as coisas vão, o que será o amanhã… Não sabemos lidar com o que não é liderado. O que fazer quando as fontes também são líquidas, que aspas usar nesse universo de cartazes?

Algumas chaves para o entendimento estão na experimentação. Passamos muito tempo tentando colocar em dimensões diferentes as redes virtuais e as redes reais. Menosprezamos as redes sociais como espaço de exercício da cidadania e não prestamos a devida atenção ao que ali se experimentava. Agora, vemos que não são dois mundos. As redes virtuais são somente ferramentas a serviço de cada um de nós, são canais por onde corre e se multiplica nossa interação com o mundo e com as pessoas que nos cercam e flui o que registramos das nossas vidas, nossas opiniões, nossas manifestações.

TwitterParade – aplicativo japonês que gerava passeatas a partir de hashtags ou listas do Twitter

Nas ruas, as manifestações não têm uma única liderança, não têm um único objetivo e nem foco específico. As pessoas conduzem cartazes com protestos, reivindicações ou desejos. Os temas se misturam, alguns são contraditórios, mas todos são legítimos. Qual a diferença da rua para sua timeline no Twitter ou no Facebook?

A experimentação ajuda no amadurecimento. Foi a convivência com o tempo real e a experiência de publicação de conteúdo próprio nas redes virtuais que criou o ambiente propício ao jornalismo em tempo real e ao jornalismo participativo.

A velocidade com que as pessoas se aglutinam e os grupos se dissolvem também nos deixa atônitos. Não percebemos que as redes sociais são somente uma base de conexão e que nelas podemos criar comunidades, que surgem e somem num piscar de olhos. As pessoas trouxeram para as ruas a experiência de comunidades efêmeras que já viviam nas redes sociais. Cada dia do movimento nas ruas era diferente. Cada dia era uma comunidade que se construía muito rapidamente e se dissolvia depois de algumas horas. Talvez não seja necessário perguntar: e agora, para onde vai esse movimento? No que isso vai dar? Já deu.

As manifestações geraram mais experimentação e deixam algumas reflexões. Uma delas é o modelo de representação política. Num mundo em tempo real, em que boa parte das pessoas já têm identidades digitais, que convive com mudanças rápidas de fluxo, conexões globais e no qual é possível medir a temperatura e a pressão da rede a todo o momento, o modelo atual de representação me parece estar em xeque. Não é a toa que “não me representa” passou a ser um termo cada vez mais usado na rede e nas ruas e nesse final de semana o governador Tarso Genro (PT-RS) já falasse em candidaturas avulsas, sem partido.

Modelo de negócio ou modelo de negação

No domingo tentei comprar a edição web de um jornal do Sul do país. Estava interessado em um texto específico, mas, sem a esperança de poder pagar somente por ele, pensei comprar a edição do dia, ler o que me interessava e descartar o restante. O leitor, no entanto, é um herói no Brasil. Para ler um único texto, a publicação exigia que eu fizesse uma assinatura mensal. Resultado: acabei pedindo ajuda pelo Facebook. Em instantes, li o artigo sem pagar nada.

The DailyEsse episódio guarda semelhanças com as edições para tablet de vários periódicos brasileiros. Embora as publicações não tenham nas versões digitais os custos de impressão e alguns de distribuição – e o leitor arque com a compra do aparelho, a conexão de internet para fazer o download e com o espaço para armazenamento -, as edições para tablet cobram preço superior ao do impresso. Será que este é um modelo de negócio para vingar ou é um modelo de negação do negócio?

Hoje, Jeff Jarvis comenta no The Guardian o anunciado fechamento do The Daily, criado em fevereiro de 2011 e visto como a redenção do modelo impresso levado ao digital; a possibilidade de manutenção dos modelos de produção e remuneração já testados nos impressos; a vingança contra o modelo gratuito da internet que fez sangrar as empresas de mídia nessa última década.

Jarvis lista três razões pelas quais a morte do The Daily estava anunciada desde o começo:

  1. O Paywall 
  2. Produto destinado a um único tipo de aparelho
  3. Edição em pacotes

Não quero repetir os argumentos de Jarvis, mas quero comentar dois deles.

O que poderia manter ativa a publicação e garantido seu modelo de cobrança pelo conteúdo seria a sua relevância, a sua originalidade. Porém, o texto de Jarvis dá pistas sobre os obstáculos desse caminho. Ele reproduz declaração de Larry Kramer, do USA Today, ao explicar por que não levanta um paywall em seu jornal: “nós não somos suficientemente originais” para cobrar pelo conteúdo.

Os meios digitais derrubaram limites no jornalismo. Um deles é a obrigação de criar pacotes determinados pelo tempo. O jornalismo online pode se livrar do fantasma do fechamento, da exigência de seguir prazos definidos pela indústria e não pela maturidade do conteúdo. Um ciclo de 24 horas ou de 7 dias consolida a informação do período, mas não melhora o resultado da edição para o leitor, pelo contrário. Para os leitores já habituados a acessar informações pela internet, esse ciclo obrigatório não faz sentido. É uma pena que os meios façam de tudo para preservá-lo.

Aplicativo de Veja está na direção certa, mas no meio do caminho

Página de abertura do aplicativo Veja 24 horas

Veja.com está dando acesso gratuito nesta semana para o aplicativo 24 horas, que roda em iPads e iPhones. A justificativa pra a gratuidade é a semana que envolve uma efeméride: o dia da secretária. Não estranhe, o aplicativo está sendo vendido como uma espécie de secretária pessoal digital. Mas é outra coisa.

A ideia de 24 horas é funcionar como despertador, agenda de compromissos e aniversários, mas também site, rádio e jornal e tudo isso com a possibilidade de personalização. Na prática, você pode usar assim: define no aplicativo o horário em que quer ser acordado e vai dormir. Na hora certa, seu iPhone ou iPad toca uma música (que você escolheu) e a partir daí você recebe informações por texto e/ou voz com seus compromissos do dia, o clima lá fora e as principais últimas notícias de Veja.com. Como se trata de um aparelho móvel, você o carrega para o banheiro, para a mesa do café da manhã e até para o carro. E pode fazer isso em outros horários do dia. Isso não parece um rádio? Sim, mas é muito mais.

O acesso desse tipo de aplicativo às suas informações pessoais no smartphone ou no iPad e a sua conta de Facebook, dá a ele uma outra dimensão, a da personalização, uma das grandes vantagens da era digital.

O grande mérito desse aplicativo é ter sido pensado não como um produto de mídia, mas um produto com mídia, o que me leva a desconfiar da gênese. Não parece ter sido algo criado dentro de uma Redação. As Redações comumente pensam para dentro de seu ambiente, não se livram facilmente de seus vícios e convicções, este foi criado pensando no usuário.

Por tudo isso, considero este aplicativo uma primeira boa tentativa no Brasil de conciliar um produto digital de empresa de mídia com a experiência plena de mobilidade.

Ditas as boas coisas, é necessário também mencionar a precariedade do funcionamento do aplicativo. Não sei como ele roda nas versões anteriores do sistema operacional da Apple, mas no iOS6 ele é lento e fecha algumas vezes, o que é básico para manter o interesse do usuário.

O aplicativo é um avanço, mas é ainda tímido na personalização das informações (imagino que aqui a Redação deu seu pitaco). Eu poderia, por exemplo, definir os temas noticiosos que me interessam, não as notícias definidas pelos editores do site ou selecionadas pelo único critério do que é mais recente. Ou os colunistas e blogs que mais me agradam. Ou saber as condições de tráfego do meu caminho habitual para o trabalho. Ou…

Mesmo no meio do caminho, o 24 horas sinaliza uma direção correta, engrena a informação no cotidiano do usuário, agiliza o dia e oferece alternativa de sentidos. É uma esperança de que possamos chegar a algum lugar.

Público x privado? Você é o que você é

O canal do Facebook no YouTube (sim, há um) publicou hoje (10/9) um vídeo sobre o ictiologista Brian Sidlauskas, da Universidade do Oregon, que é um excelente exemplo de como a criação de comunidades virtuais em redes sociais pode beneficiar a ciência. Sidlauskas liderou uma expedição de pesquisa pela região do rio Cuyuni, na Guiana (inglesa), ao norte do Amazonas, em janeiro de 2011. A equipe do ictiologista (zoólogo que estuda os peixes) coletou mais de 5 mil peixes, boa parte deles desconhecidos para os pesquisadores da expedição.

A política de imigração da Guiana, no entanto, exigia a identificação e catalogação de todos os animais para que eles pudessem sair do país, uma tarefa praticamente impossível com um cronograma apertado. O cientista apelou, então, para o Facebook. A equipe fez upload das imagens e pediu à comunidade científica que os ajudassem a identificar as espécies nas fotos publicadas na rede social. O resultado você vê neste vídeo abaixo:

O que quero realçar nesse caso é que na contramão da discussão sobre privacidade nas redes, surgem histórias como a de Brian Sidlauskas, exemplos de que os limites entre vida pessoal e profissional são cada vez mais tênues, que as tentativas de separar a persona pública da persona privada são cada vez mais difíceis e, em muitos casos, nem fazem mais sentido. Você é o que você é.

O próprio Sidlauskas encerra o vídeo com a constatação de que o relacionamento com seus pares não é um subproduto da comunidade, mas está no centro, no coração, da sua atividade : “O fato de podermos passar um pouco do nosso tempo interagindo uns com os outros cria uma ligação pessoal que eu considero uma parte importante das relações que está no centro do empreendimento científico”.

Niiiws, o aplicativo para iPad que agrega conteúdos de jornais brasileiros

Ler notícias em português em aplicativos agregadores para tablets ou smartphones não é uma experiência fácil e prazenteira. Para acessar notícias publicadas no Brasil nesses agregadores, o leitor até agora estava limitado às informações compartilhadas em sua rede de relacionamento, principalmente no Twitter e Facebook, e relacionadas em agregadores como Flipboard, por exemplo. Melhor, mas nem sempre mais fácil, era registrar o RSS de suas fontes preferidas em português em aplicativos como Feedly ou Google Currents. Tudo muito longe da experiência de um Zite.

Ontem recebi o link para fazer o download do Niiiws, um aplicativo que tem criado versões para diferentes países e lançou uma versão brasileira que se propõe a oferecer as “notícias mais relevantes dos jornais brasileiros no iPad”.

O aplicativo separa os conteúdos por temas, reúne conteúdo dos principais sites de jornais brasileiros (não percebi a presença d’O Globo) e, bom para os sites, em vez de reproduzir o conteúdo das páginas num template próprio, o agregador se transforma numa espécie de browser e abre a página do site abaixo de uma barra do Niiiws. Imagino que nesse caso, contabilize audiência e a exibição dos anúncios presentes nas páginas originais.

O problema começa na seleção das informações. O Niiiws não distingue, a princípio, conteúdos de interesse mais amplo das notícias regionais. Assim, notícias de interesse local disputam espaço com informações nacionais e internacionais. Isso não seria um problema se houvesse a possibilidade de fazer escolhas prévias de veículos, temas e local de meu interesse. Essa configuração é possível, mas somente quando o leitor acessa uma determinada notícia. No contexto da notícia, e de uma maneira discreta, o Niiiws se aproxima do Zite e oferece a possibilidade de “pedir” mais informações, de dizer ao software que quer receber dali em diante mais conteúdos de um determinado veículo, tema ou – boa novidade – do autor do texto.

Se o aplicativo funcionar como funciona o Zite, teremos algo muito bom nas mãos, mas o leitor precisará fazer um polimento, uma lapidação, para personalizar o aplicativo e torná-lo útil e necessário.

Há duas coisas que não dependem do leitor, mas que o software precisará fazer para melhorar o Niiiws. Uma delas é trazer junto com a informação a data e o horário em que as notícias foram publicadas (acessei uma notícia na Home que já estava publicada há quase 24 horas pensando tratar-se de algo do dia). Outra é fazer um filtro que identifique o veículo ou o conteúdo mais relevante para uma determinada informação. Sobram fotos do ator Michael Clarke, falecido no dia 3 de setembro, e da derrière da Mulher Pêra (com acento/assento), candidata a uma vaga na câmara de vereadores de São Paulo. Como os assuntos foram destaque em vários veículos, o aplicativo empilha mais do mesmo na tela do iPad.

As lições da Forbes.com

No processo de desenvolvimento de produtos para plataformas digitais ainda é comum ver convicções mais do que técnicas – como testes de usabilidade e focus groups – norteando as escolhas. Nesses casos, quase sempre as convicções de quem pode mais acabam se sobrepondo às demais e determinando os novos formatos. É o produto feito literalmente para um usuário único.

Mesmo em ambientes mais plurais, em que as decisões são tomadas depois de discussões intensas, há o risco de se formatar produtos que são resultado de uma média das convicções participantes do processo de decisão.

Na base disso está uma outra convicção: a de que a experiência dos envolvidos no processo de criação é determinante para desenhar um novo produto. Porém, nos ambientes de inovação, a valorização da experiência pode ser um risco. Ela pode ser uma âncora que o prende à superfície. O processo de inovação é um processo de ruptura, que implica olhar para a frente e, muitas vezes, esquecer o passado, ainda que momentaneamente.

Certa vez, em meio a uma acalorada discussão sobre posicionamento de menus em um novo site, eu propus, para espanto geral, fazer o site sem menu. Minha proposta foi tomada como brincadeira, mas não era esse o meu propósito. Evidentemente, minha sugestão não foi considerada, mas teria sido um bom momento para testarmos nossas convicções.

Ao desenhar para novas plataformas, ambientes ainda não totalmente testados, é necessário ouvir todas as áreas envolvidas, considerar com mais atenção as alternativas propostas e uma boa dose de coragem para arriscar novos formatos.

É por acreditar nisso que respeito a decisão tomada já há quase dois anos pela Forbes de reformular seu site. A nova homepage de Forbes.com, publicada há dois meses, é a expressão das mudanças em todo o site. Ela rompe com os modelos já tradicionais de homepages, propondo novas formas de classificação dos conteúdos e envolvendo diretamente o usuário e o marketing no processo. Recomendo uma leitura atenta ao post Inside Forbes: The 5 Reasons Behind Our Bold New Home Page, publicado por Lewis DVorkin, diretor de produto da Forbes Media. É uma pequena aula sobre o que descrevi acima. E olho nesse sujeito.

Há alguns dias, o site implantou um novo processo de busca nos conteúdos, chamado de Typeahead search. A princípio parece uma autocompletar, comum em vários campos de formulário na web. Mas o sistema todo é mais do que isso. Veja no exemplo abaixo. Ao chegar na terceira letra da busca por Eduardo Saverin, o sistema já vai apresentando muito rapidamente as opções de conteúdos classificados que possam atender a minha busca…

Mas o melhor vem depois. Ao clicar no item de busca desejado, o que se abre é uma página muito bem organizada e hierarquizada com acesso a todos os conteúdos relacionados à busca feita. A página oferece ainda caminhos para outros conteúdos que estejam relacionados de alguma modo com o objeto da busca. Vale a pena dedicar algum tempo fazendo buscas e observar as soluções empregadas pela Forbes.com para atender à curiosidade ou à necessidade de informação de seus leitores. Enriquecer as páginas de perfis como esta de Eduardo Saverin é um trabalho cotidiano da Redação.

Uma solução como esta exige da Redação um cuidado com a classificação dos conteúdos e revela um enorme zelo com o acervo. É mais do que colocar tags no que é publicado. É pensar que pessoas e empresas também fazem parte de uma rede de relacionamentos. E Forbes.com faz esta engenharia colocando a força de seu acervo a serviço do seu leitor.

Diferente da produção para veículos como revistas e jornais impressos que organizam seus arquivos por edição e data, os acervos digitais têm permanência, estão vivos. Isso nos leva a rever nossa ideia do prazo de validade da informação. Um acervo vivo e bem organizado, como a de Forbes.com, enriquecido diariamente, é valioso. E isso certamente é percebido pelo usuário que se encanta ao ver tantas opções e referências para algo que ele buscava.

O Google faz enquanto a mídia dorme. Agora é o Google Currents

Interatores no Google Currents

Hoje poderia ser um bom dia para a indústria de mídia. Os tablets, as tábuas de salvação das nossas redações, devem vender o dobro do que venderam no ano passado. Serão mais 118 milhões de aparelhos nas mãos dos leitores em 2012, anunciou a Gartner. Mais aparelhos disponíveis para leitores ansiosos por informação; mais gente capacitada a pagar por aplicativos e provar que a experiência de leitura dos meios impressos pode ser repetida nos meios eletrônicos.

Se a miopia não prevalecesse, possivelmente as editoras já teriam investido em novos modelos de negócio que envolvessem a fragmentação do conteúdo. Em vez de vender somente edições fechadas, poderiam já ter oferecido conteúdo a granel. Em vez de criar somente aplicativos para as versões digitais de suas publicações, poderiam já ter apostado em um aplicativo que funcionasse como banca e vendesse artigos e reportagens de variadas origens.

Mas a história sempre se repete. A indústria da mídia não faz, aí vai lá o Google ou algum outro e faz pela mídia. Hoje o Google abriu para o resto do mundo o que já oferecia desde o ano passado para os americanos: o Currents, um novo agregador de conteúdo que funciona como uma banca digital.

Depois de baixar o aplicativo, o usuário pode configurar sua lista de leitura selecionando os temas de interesse e, dentro deles, as publicações. São mais de 180 e a elas é possível ainda agregar fontes que estão no Google Reader ou conteúdos selecionados por curadores.

O Google Currents otimiza o conteúdo para os vários formatos de tela dos tablets, oferece conteúdo gratuito (por enquanto) e permite o compartilhamento em várias redes sociais, incluindo botão para o Pinterest.

Uma boa notícia é que se você tem um blog ou uma publicação, pode criar uma conta de produtor e facilmente colocar no Currents a sua publicação. Acabei de fazer uma para Interatores e você pode inseri-la em sua biblioteca clicando aqui ou fazendo uma busca por “interatores”. Na área de administração, você pode inscrever seu código de Google Analytics e acompanhar também a audiência das suas páginas.

Com o Currents, minha lista de agregadores no iPad chega a 15 produtos diferentes. Cada um com suas especificidades, todos privilegiam a classificação do conteúdo, o design e a experiência de leitura. O Zite foi comprado pela CNN, mas nenhum dos 15 foi criado pela indústria de mídia.

Quer saber um pouco mais? Acesse o vídeo explicativo abaixo.


Introducing Google Currents

10 chaves para ingressar no mundo digital

A falta de entendimento das diferenças entre um meio e outro ainda é a principal barreira para a transição necessária e urgente dos meios analógicos para o ambiente digital. Porém, por mais que este devesse ser um tema resolvido, há ainda um grande número de veículos e jornalistas que nem começou a migração.

Há alguns dias, apresentei uma conferência organizada pela revista Imprensa em Salvador para a comemoração do segundo século do surgimento da primeira revista no Brasil. A pedido dos organizadores, preparei 10 novos mandamentos para a revista no mundo digital. Percebi depois que, com algumas pequenas modificações, o decálogo se aplicaria a qualquer publicação.

Transformei, então, os mandamentos em “10 chaves para ingressar no mundo digital”. Ei-las em versão resumida:

  1. Respeite e aprenda com a experiência do leitor
    O leitor é parceiro na produção e na difusão do conteúdo. Entenda a diversidade de experiências de uso, respeite-as e ajude o leitor a encontrar e compartilhar seus conteúdos. No mundo digital, o leitor é o início, o fim e o meio.
  2. Os infiéis são o seu público. Sua marca precisa de vínculos mais fortes
    A fidelidade é rara nos meios digitais. O leitor não passa pela banca. Se ele não reconhece sua marca como relevante, você o perdeu. Crie mais vínculos, valorize a participação e a opinião do leitor, crie comunidades em torno de sua marca, use os espaços em redes sociais. Persiga-o. Prenda-o. Leve-o consigo.
  3. O que você une, o leitor separa
    A ideia de edição mudou, os padrões são agora determinados pelo leitor. Deixe que ele crie seus próprios pacotes. Fracione o conteúdo. Você tem um magazine, mas vai depender da venda a granel
  4. Reveja a sua ideia de periodicidade
    O tempo é subjetivo. Não é mais o calendário que determina a publicação do conteúdo. Rompa com o fechamento. Entregue ao seu leitor, quando ele necessitar, o melhor conteúdo que tiver em mãos, independente da plataforma
  5. Liberte-se dos antigos formatos
    Use os melhores recursos disponíveis para contar uma história. Misture tudo, texto, áudio, fotos e vídeos, se isso puder ser melhor para o leitor. Não se limite aos formatos predefinidos, dê o espaço e o tempo que a informação requeira
  6. Você publica em múltiplas plataformas. Escale o que for possível escalar, eleja o que for necessário personalizar
    Busque soluções tecnológicas que permitam minimizar o efeito que a variedade de plataformas possa causar na produção. Procure escala sem esquecer as peculiaridades de cada plataforma
  7. Não se feche somente em aplicativos 
    O aplicativo é uma forte esperança de remuneração pelo conteúdo produzido. Teste as suas possibilidades, mas não deixe de apostar no browser, de experimentar e de buscar novas soluções para rentabilizar a sua atuação na internet
  8. Observe a experiência do leitor 
    Na novidade, valem mais os testes de observação e focus group do que as pesquisas
  9. Derrube todos os muros
    Os desafios impostos pelo universo digital não podem ser enfrentados isoladamente pela Redação, Publicidade ou Tecnologia. Todos precisam estar juntos na busca das melhores soluções. O mesmo vale para redações [impresso + site + tablets]
  10. Não confunda limitação com característica
    Na migração para os meios digitais leve consigo somente a sua marca e o que ela representa. Esqueça o resto e descubra o novo