A participação do leitor

A interatividade é uma das mais marcantes características do Jornalismo Digital principalmente pela possibilidade de interação pelo próprio meio. Esse, porém, é um tema sempre em aberto, que não se define, que não se consolida. Isso ocorre por ao menos duas razões: as redes sociais aproveitaram essa indecisão e se transformaram no espaço de opinião das audiências e a falta de convicção dos produtores de conteúdo em geral sobre a importância de abrir e fazer a gestão dos espaços de convivência com o público.

Muitos editores alegam que a baixa qualidade do que é postado pelos leitores é uma razão suficiente para que os espaços de comentários sejam fechados. Mas muitos deles cobram da audiência aquilo que não oferecem em suas homes. A luta por audiência a qualquer preço, que faz com que os sites publiquem conteúdos sensacionalistas para atrair um grande volume de público, uma audiência volátil que não cria laços com a marca ou o produto, certamente ajuda a atrair comentaristas descompromissados com a qualidade do debate.

A participação do leitor, os prós e contras, os desafios, ferramentas e alguns casos de veículos que resolveram ou se encaminham para uma boa solução desse tema constam da apresentação que fiz para os alunos do Master em Jornalismo Digital do IICS agora em agosto e que reproduzo abaixo para os interessados.

Eliane Brum e o triunfo das eu.com

eliane brum
Eliane Brum (Reprodução Facebook)

Uma década atrás, quando um colunista saía de um veículo de comunicação, ele deixava para trás o nome de sua coluna, as matrizes do conteúdo que produziu e, principalmente, seu público. Para os veículos, bastava achar um nome que o substituísse à altura. O jornalista era dependente e, de certo modo, refém do seu veículo de comunicação.

De lá para cá isso mudou, embora ainda exista nas Redações quem não perceba. A jornalista e documentarista Eliane Brum é um exemplo perfeito e recente dessa mudança. Nessa última década, ela foi repórter e, nos últimos anos, colunista do site da revista Época. Os textos de Eliane conquistaram um público fiel, formado não mais por leitores passivos, mas por leitores ativos que passaram a compartilhar suas colunas nas redes sociais. Uma multidão de 235 mil leitores curtiu uma dessas colunas – Meu filho, você não merece nada – no Facebook. Paralelo a isso, ela criou seu canal no Twitter e uma página no Facebook, o que lhe garante um público conectado de mais 50 mil leitores.

Há algumas semanas, Eliane deixou o site de Época. Na internet, quem abre mão de profissionais como Eliane Brum, corre o risco de perder também o público que os lê. No Jornalismo digital há um grupo cada vez mais numeroso de profissionais que se tornaram insubstituíveis porque levam consigo seus públicos. Ela faz parte desse time.

Na semana passada, Eliane começou a publicar uma nova coluna no site brasileiro do jornal espanhol El País, lançado na terça-feira. Mesmo publicando num site estreante e ainda pouco conhecido, ela já contabilizava no dia seguinte mais de 20 mil compartilhamentos no Facebook. Sua rede continua ativa e seu público se reorienta para continuar a segui-la. Em paralelo, suas colunas anteriores ainda estão disponíveis na web, seu acervo permanece acessível e criando mais seguidores. Os novos e os habituais leitores encontrarão facilmente o novo espaço da jornalista e se mostrarão dispostos a ler seus textos enquanto ela estiver elaborando conteúdos que lhes interessem.

Eu.com

Assim como Eliane Brum, há inúmeros casos de profissionais que conseguem nas redes sociais um número de seguidores superior aos que conseguem alcançar as marcas dos veículos em que atuam. É o caso de profissionais como William Bonner, que tem no Twitter cinco vezes o número de seguidores do canal do Jornal Nacional, ou de Luciano Huck, que tem bem mais seguidores que o perfil oficial da Rede Globo.

E deveria ser o caso de todos os profissionais de comunicação. O jornalista não deve perder a oportunidade de levar sua marca pessoal para a internet. Mais do que isso, ele deveria planejar a sua presença e atuação na web, criar relações com seu público e usar as redes sociais como instrumento para fortalecer sua marca. Seus seguidores serão seu público permanente, onde quer que ele atue. Essa estratégia não necessariamente deve estar apartada do veículo em que trabalha. Pelo contrário, a divulgação dos conteúdos na rede de relacionamento do jornalista ajuda o jornal, rádio, site ou TV enquanto os dois, profissional e empresa, forem parceiros.

Compare

William Bonner  realwbonner  no Twitter

Jornal Nacional  JNTVGloboBrasil  no Twitter

Luciano Huck  LucianoHuck  no Twitter

Globo  rede_globo  no Twitter

Lulu e os sistema de reputação

Lulu  First Ever App for GirlsPrivacidade é um bem que está mais em baixa que as ações de Eike Batista.

A privacidade como a imaginávamos ou o controle do que é privado, a propriedade das informações a nosso respeito, só é possível naquilo que é íntimo, absolutamente individual e jamais compartilhado. E talvez sempre tenha sido assim. A falta de registros, a disseminação velada de informações a nosso respeito, à nossa revelia e sem que soubéssemos, criou uma ilusão de privacidade que se desfaz numa sociedade de indivíduos conectados por redes sociais. Agora tudo se registra.

Lulu, o aplicativo, é só mais um choque dessa realidade. Ironicamente apresentado como uma “rede privada”, o aplicativo possibilita às meninas registrar, levar a público, sem culpa, o que já compartilhavam em pequenos grupos, o que jamais foi privado.

As redes sociais funcionam como aceleradores de partículas e, dependendo da sensacionalidade do caso, podem criar uma explosão. E é preciso saber lidar com explosivos.

Eu sei o que vocês fizeram na noite passada

Não se controla aquilo que se pensava íntimo se esse momento foi compartilhado, mesmo que com uma única pessoa. E há ainda menos garantia de preservação quando o contrato se estabelece por razões ou motivações emocionais. E é esse o caso do aplicativo.

Lulu valoriza a #hashtag como rótulo, com toda a carga de graça ou preconceito que isso permite, e vai além. Com a possibilidade de dar pontos aos rapazes, as Luluzinhas desestabilizaram o clube do Bolinha. Lulu é um sistema de reputação, essa sim a ação valorizada e com tendência de alta.

A reputação é o novo valor que se sobrepõe à privacidade. E isso pode ser bom, mas nossa geração vai pagar pelo seu histórico, pelo seu desleixo, porque as regras mudaram durante o jogo. Nós não fomos vacinados para enfrentar a revelação das nossas fraquezas.

Nossos filhos saberão lidar melhor com essa realidade se os preparamos para viver em um mundo mais respeitoso, numa sociedade em que as responsabilidades serão cobradas com mais intensidade e a ética determine ou seja a base das relações entre os indivíduos e nas relações desses com o que é público.

Por um Lulu da política

Genoino
Genoíno no Lulu, cria do Kibeloco

Depois das manifestações de junho, escrevi aqui sobre as novas formas de participação e representatividade política que poderíamos vislumbrar no horizonte. Naquela ocasião, citei Joaquim Barbosa e a referência que ele fez a um recall de representantes.

Nós já somos fiscais do Sarney, mas também da reputação do José, da Maria, da Alice, do Benedito… Logo teremos o Lulu da política, não um aplicativo, mas um sistema de reputação onde poderemos rotular as coisas boas e más, dar notas e verificar o histórico ou em tempo real a avaliação de nossos representantes.

A sensação de um aplicativo como Lulu impõe à sociedade uma discussão sobre o uso de ferramentas de reputação. A experiência de uso traz à tona os benefícios, riscos e danos que um sistema como esse proporciona. E esse exercício cotidiano nos levará a uma maturidade que nos permita usar sistemas semelhantes como apoio à cidadania.

E continuará cabendo ao cidadão o valor da nota que ele dará ao representante rotulado por hashtags como #RoubaMasFaz. No seu íntimo, o indivíduo saberá se esse sujeito o representa ou não.

Talk of the town

Google Trends
Buscas por “app lulu” no Brasil nos últimos 30 dias [Google trends]

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Público x privado: você é o que você é
No mundo online você tem que andar na linha

O mundo real em tempo real

Foto de João Pina sobre os protestos no Brasil publicada na New Yorker

A perplexidade diante das manifestações que tomaram ruas e cidades brasileiras nos últimos dias tem alguma explicação na nossa insistência em tentar analisá-las com as referências que tínhamos – e que já não mais se aplicam – e na nossa incapacidade de refletir sobre o valor da experimentação.

Queremos aplicar o que está ocorrendo ao nosso modelo mental já estabelecido. Queremos consolidar, queremos fatos concretos, sólidos, quando o que está acontecendo é líquido, é fluxo e contrafluxo. Buscamos lideranças, pessoas com autoridade, com rosto e passado, que possam nos dizer o que tudo significa, para onde as coisas vão, o que será o amanhã… Não sabemos lidar com o que não é liderado. O que fazer quando as fontes também são líquidas, que aspas usar nesse universo de cartazes?

Algumas chaves para o entendimento estão na experimentação. Passamos muito tempo tentando colocar em dimensões diferentes as redes virtuais e as redes reais. Menosprezamos as redes sociais como espaço de exercício da cidadania e não prestamos a devida atenção ao que ali se experimentava. Agora, vemos que não são dois mundos. As redes virtuais são somente ferramentas a serviço de cada um de nós, são canais por onde corre e se multiplica nossa interação com o mundo e com as pessoas que nos cercam e flui o que registramos das nossas vidas, nossas opiniões, nossas manifestações.

TwitterParade – aplicativo japonês que gerava passeatas a partir de hashtags ou listas do Twitter

Nas ruas, as manifestações não têm uma única liderança, não têm um único objetivo e nem foco específico. As pessoas conduzem cartazes com protestos, reivindicações ou desejos. Os temas se misturam, alguns são contraditórios, mas todos são legítimos. Qual a diferença da rua para sua timeline no Twitter ou no Facebook?

A experimentação ajuda no amadurecimento. Foi a convivência com o tempo real e a experiência de publicação de conteúdo próprio nas redes virtuais que criou o ambiente propício ao jornalismo em tempo real e ao jornalismo participativo.

A velocidade com que as pessoas se aglutinam e os grupos se dissolvem também nos deixa atônitos. Não percebemos que as redes sociais são somente uma base de conexão e que nelas podemos criar comunidades, que surgem e somem num piscar de olhos. As pessoas trouxeram para as ruas a experiência de comunidades efêmeras que já viviam nas redes sociais. Cada dia do movimento nas ruas era diferente. Cada dia era uma comunidade que se construía muito rapidamente e se dissolvia depois de algumas horas. Talvez não seja necessário perguntar: e agora, para onde vai esse movimento? No que isso vai dar? Já deu.

As manifestações geraram mais experimentação e deixam algumas reflexões. Uma delas é o modelo de representação política. Num mundo em tempo real, em que boa parte das pessoas já têm identidades digitais, que convive com mudanças rápidas de fluxo, conexões globais e no qual é possível medir a temperatura e a pressão da rede a todo o momento, o modelo atual de representação me parece estar em xeque. Não é a toa que “não me representa” passou a ser um termo cada vez mais usado na rede e nas ruas e nesse final de semana o governador Tarso Genro (PT-RS) já falasse em candidaturas avulsas, sem partido.

Otimização para Interatividade com a Audiência?

Em 2009, eu lecionei no Master em Jornalismo uma cadeira chamada “Instrumentos de Interatividade com a Audiência”. O tema resistiu pouco no currículo do curso, atropelado pela necessidade de conhecimento acerca de redes sociais, a grande curiosidade daquele momento. Essa mudança acadêmica, a meu ver, reflete o que aconteceu nas Redações. A atenção se voltou para as mídias sociais e os instrumentos e canais próprios de interação com os leitores ficaram em segundo plano.

O que não poderíamos ter esquecido é que o nosso ambiente e o das redes têm pontos de conexão, mas são mundos diferentes. Embora eu admita que seria impossível conter essa natural migração para os novos ambientes criados por Twitter, Facebook e outros, entendo que não precisaríamos ter aberto mão das nossas áreas de interação.

Numa apresentação que preparei sobre o tema – e que reproduzo abaixo para os interessados – faço uma revisão das ferramentas mais importantes e alguns dos motivadores que tínhamos para usá-las. Relembrar um pouco delas, por mais óbvio que pareça, é um bom exercício.

Nesse documento, proponho a criação de técnicas, na linha de SEO e SMO, de otimização da interatividade com a audiência atendendo a dois grupos de usuários distintos. Para o leitor, incentivo e facilidade para interação; para o jornalista, produtividade e facilidade para gestão.

Também procuro descrever algumas funcionalidades que promovem a aproximação e criam mais pontos de conexão entre os dois ambientes digitais: o das redes e os nossos sites. Proponho também encarar alguns conteúdos como um empreendimento, um exercício de inovação que considere na sua elaboração o envolvimento de pessoas com perfis diferentes, conteúdos que sirvam a várias plataformas, com expectativa de viralizar e possam construir comunidades em seu entorno, mesmo que essas redes se tornem obsoletas quando o interesse pelo tema definhar. O uso intensivo das mídias sociais deu experiência aos usuários e eles não se importarão com a volatilidade dessas novas redes se ingressar nelas for algo muito simples.

Como usar as redes sociais nas grandes coberturas esportivas

Em 2008, na Olimpíada de Pequim, o Twitter estava inacessível na China, o Facebook era uma rede social ainda pequena e com pouca adesão no Brasil e o Orkut navegava com toda força à frente pelas ondas da internet brasileira. De lá para cá, as redes sociais modificaram o modo como nos informamos e conduzimos nossos relacionamentos e se tornaram, por ironia, a única grande novidade no jornalismo nesse período.

No início desta semana, em São Paulo, participei do seminário do IICS sobre as coberturas de grandes eventos esportivos e compartilho aqui a apresentação que fiz com algumas observações para ajudar as Redações no planejamento do uso de mídias sociais para a geração de conteúdo em grandes coberturas.  Minha apresentação complementou as de Ana Brambilla e Eduardo Generoso, que também participaram do painel.

Ressalto disso tudo a minha visão de que é fundamental para qualquer jornalista, independente do meio em que opere, ter conhecimento de excelente nível sobre mídias sociais: como e o que postar, como monitorar pessoas, temas e tendências, como checar as informações e compartilhar nos seus canais e como medir resultados do seu trabalho para melhorar continuamente o seu trabalho.

O que deve fazer o jornalista diante do boato

  1. Na manhã deste sábado, 3 de novembro de 2012, um boato se espalhou pelo Twitter e chegou alcançou uma das principais posições nos Trending Topics, o ranking dos termos mais postados na rede social. O boato, que deu repercussão à hashtag #ENEM2012cancelado, procurava confundir os 5,8 milhões de inscritos para as provas do ENEM.
  2. Ao que tudo indica, o boato começou com uma série de posts do usuário @gui_pangua (Chora Minha Nega). O primeiro teria sido publicado às 10:08, duas horas antes do início da prova. A este seguiram-se outros:
  3. gui_pangua
    BREAKING NEWS #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:08:39
  4. gui_pangua
    porra acordei cedo pra essa merda de uma hora antes eles cancelam ??? NAO FAS SENTIDO #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:12:56
  5. gui_pangua
    o melhor q eu posso fazer é chorar agora :’( estudei o ano inteiro pra essa prova, era o meu futuro ali… #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:17:16
  6. Nestes dois próximos, ele sugere que G1 e TV Globo teriam noticiado o cancelamento e no terceiro responde a outro usuário:
  7. gui_pangua
    RT @g1 Hacker consegue nessa madrugada invadir sistema do ministério da educação e rouba as respostas do ENEM #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:22:05
  8. gui_pangua
    MEU DEUS PLANTÃO DA GLOBO AVISANDO QUE O ENEM FOI CANCELADO #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:22:52
  9. gui_pangua
    O TEMA DA REDAÇÃO DO ENEM DESSE ANO IA SER MEMES, PENSANDO BEM O CANCELAMENTO NAO FOI TÃO RUIM ASSIM #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 10:39:04
  10. gui_pangua
    nao mais #ENEM2012cancelado RT @thaiskauana1: Vou comer e depois tomar banho que daqui a pouco tem ENEM neh
    Sat, Nov 03 2012 10:40:50
  11. Às 11h16, o MEC publica no Twitter uma mensagem dizendo que identificou a origem do boato. Os portais começam a publicar a notícia e tuitar a informação, mas muitos deles só o fazem depois do início da prova.
  12. MEC_Comunicacao
    Polícia Federal monitora a rede social e identificou origem de hashtag com o objetivo de tumultuar a prova. O Enem está confirmado!
    Sat, Nov 03 2012 11:16:27
  13. JornalOGlobo
    MEC desmente boato sobre cancelamento do Enem. PF diz ter identificado origem de hashtag. http://migre.me/bxK8y
    Sat, Nov 03 2012 11:49:06
  14. UOLNoticias
    MEC desmente boatos de cancelamento do Enem 2012; segundo a pasta, PF já identificou origem do boato http://educacao.uol.com.br/noticias/2012/11/03/mec-desmente-boatos-de-cancelamento-do-enem-2012.htm
    Sat, Nov 03 2012 12:13:35
  15. igeducacao
    MEC desmente boato de cancelamento do Enem http://bit.ly/Vmyr3x
    Sat, Nov 03 2012 12:48:13
  16. TerraNoticiasBR
    Polícia descobre origem de boato sobre cancelamento do Enem http://bit.ly/RAwwUu #TerraEducação
    Sat, Nov 03 2012 12:57:34
  17. O perfil de Educação do Estadão tenta entrevistar o suspeito de ter iniciado o boato:
  18. EstadaoEdu
    @gui_pangua Oi! Vc quer nos dar uma entrevista para falar sobre o Enem?
    Sat, Nov 03 2012 12:26:00
  19. E depois publica a versão do suspeito:
  20. EstadaoEdu
    Tuiteiro nega ter criado boatos sobre cancelamento do Enem – ‘É injusto o MEC me responsabilizar.’ – http://ow.ly/eZF7X #EstadaoEnem
    Sat, Nov 03 2012 08:26:36
  21. Numa prova de que a maioria dos perfis dos portais no Twitter está mais dedicada a criar audiência para seus sites, quase todos tuitaram sua cobertura sobre o assunto, mas poucos interviram com a intenção de parar os boatos e elucidar os fatos. Foi bem o Estadão. O perfil do jornal no Twitter fez contato com o acusado e procurou esclarecer seus seguidores. Ao postar o alerta, o jornal usou a hashtag no post, o que fez com que ele pudesse aparecer na timeline de quem clicou nessa hashtag à procura de mais informações.
  22. Estadao
    A hashtag #EnemCancelado, nos TTs mundiais esta manhã, é falsa, confirmam fontes do MEC http://migre.me/bxJYS
    Sat, Nov 03 2012 06:46:58
  23. O perfil do Twitter do Jornal Hoje, da TV Globo, foi mais longe. Fez o alerta assim como o Estadão, mas ainda aproveitou para chamar a atenção dos estudantes para a cobertura do jornal e fazer um afago na audiência.
  24. JHoje
    Estudante, fique tranquilo. O Enem 2012 não foi cancelado. Acompanhe no G1: http://glo.bo/9fOO7l. Boa prova e boa sorte! #ENEM2012cancelado
    Sat, Nov 03 2012 06:46:40
  25. Intervir e usar a hashtag já é muito, mas melhor seria se os perfis jornalísticos no Twitter direcionassem o esclarecimento para os perfis com muitos seguidores que estavam inadvertidamente retuitando uma informação falsa. Pode parecer um exagero, mas é aí que o jornalismo mostra seu valor para a sociedade.

Público x privado? Você é o que você é

O canal do Facebook no YouTube (sim, há um) publicou hoje (10/9) um vídeo sobre o ictiologista Brian Sidlauskas, da Universidade do Oregon, que é um excelente exemplo de como a criação de comunidades virtuais em redes sociais pode beneficiar a ciência. Sidlauskas liderou uma expedição de pesquisa pela região do rio Cuyuni, na Guiana (inglesa), ao norte do Amazonas, em janeiro de 2011. A equipe do ictiologista (zoólogo que estuda os peixes) coletou mais de 5 mil peixes, boa parte deles desconhecidos para os pesquisadores da expedição.

A política de imigração da Guiana, no entanto, exigia a identificação e catalogação de todos os animais para que eles pudessem sair do país, uma tarefa praticamente impossível com um cronograma apertado. O cientista apelou, então, para o Facebook. A equipe fez upload das imagens e pediu à comunidade científica que os ajudassem a identificar as espécies nas fotos publicadas na rede social. O resultado você vê neste vídeo abaixo:

O que quero realçar nesse caso é que na contramão da discussão sobre privacidade nas redes, surgem histórias como a de Brian Sidlauskas, exemplos de que os limites entre vida pessoal e profissional são cada vez mais tênues, que as tentativas de separar a persona pública da persona privada são cada vez mais difíceis e, em muitos casos, nem fazem mais sentido. Você é o que você é.

O próprio Sidlauskas encerra o vídeo com a constatação de que o relacionamento com seus pares não é um subproduto da comunidade, mas está no centro, no coração, da sua atividade : “O fato de podermos passar um pouco do nosso tempo interagindo uns com os outros cria uma ligação pessoal que eu considero uma parte importante das relações que está no centro do empreendimento científico”.

Internet sob medida

[O texto que segue é a reprodução do artigo que escrevi para o e-book Para entender as mídias sociais – vol. 2, organizado pela expert em redes sociais Ana Brambilla e lançado na quinta-feira, 29 de março em São Paulo.

O e-book está disponível para download gratuitamente e tem textos de outros 37 autores.]

 

 

A internet é a primeira opção para quem quer ou precisa encontrar algo, seja uma informação, um objeto de desejo, uma rota ou até mesmo um amigo pra conversar. Ela tem de tudo e uma simples busca nos leva quase sempre ao resultado exato, à solução perfeita para o nosso problema. Porém, encontrar na internet exatamente o que se procura não ofusca o encanto que é se perder por ela. Há um lado sedutor na web, o da descoberta ao acaso, do vagar sem rumo, de um link para o outro, até que algo inusitado e fascinante domine toda a nossa atenção.

Esse navegar impreciso, caótico à primeira vista, não obedece a hierarquias. Esse modo de navegação deixa ao leitor o livre arbítrio, dá a ele o comando sobre a rota que vai traçar. E, quando assume o poder da escolha, ele é seu próprio editor.

Fora da rede, no mundo real (se é que a distinção ainda cabe), nossas escolhas são mais limitadas. No mercado, por exemplo, antes de fazer sua própria opção de compra, o sujeito se depara com escolhas feitas previamente por quem produziu um determinado bem. Há nisso uma tentativa de encontrar um padrão que aproxime ou adeque o bem ao gosto ou à necessidade da clientela. O desejo do consumidor está quase sempre à mercê da escolha prévia de um especialista ou submetido a pacotes que pretendem representar uma média de mercado. Ou seja, por trás de um balcão também há um editor.

Antes da internet, o acesso à informação seguia por esse caminho. Ao comprar uma revista ou um jornal, adquiríamos um pacote. Nosso interesse poderia ser específico, mas nos obrigávamos a levar o pacote completo. Havia somente duas opções: era tudo ou nada.

A internet inverteu a lógica. Ao fragmentar todo o seu conteúdo e criar laços entre os fragmentos, a web tornou a ideia do pacote obsoleta. O leitor pode determinar sua experiência de navegação, como se fosse o único consumidor de toda a informação disponível.

Mesmo assim, nos primórdios da internet, muitos sites e portais de informação viam no link externo a porta por onde perderiam seus leitores. Os diques para conter a onda pareciam simples, bastava não dar links externos que a audiência se manteria por mais tempo nos limites do seu domínio. Não contavam com a astúcia do leitor. Ele já sabia como chegar diretamente às fontes da informação. Essas fontes tinham agora um canal próprio, que fala diretamente com o público, sem necessariamente a intermediação de um veículo de mídia. Com as redes sociais, esses canais se multiplicaram exponencialmente e os links se disseminaram pela rede, divulgados e compartilhados por todos os participantes.

Perdida a batalha do link, a esperança para a antiga mídia renasceu com os primeiros tablets. O modelo fechado proposto pelos aplicativos parecia a redenção da indústria: uma única porta de acesso, sem saídas laterais, links internos e a possibilidade de colocar uma bilheteria na porta.

Mas os tempos mudaram e a esperança agora morre antes. O modelo de pacote fechado proposto pela mídia, com informações selecionadas e classificadas por um editor, que reproduz com fidelidade os conteúdos publicados nas versões impressas, que recupera os modos lineares de navegação, que obedece à periodicidade do meio offline, agrega algum conteúdo multimídia e não parece estar preocupado com a experiência de uso do leitor não vingou.

No mundo dos tablets, quem emergiu foram os agregadores. Não aqueles antigos serviços que agregavam feeds de RSS, como Netvibes. As estrelas agora são novos e modernos aplicativos, como Flipboard, que aliam design com informação oriunda de múltiplas fontes, principalmente do que é compartilhado pelas pessoas que estão na rede de relacionamentos do leitor, nas redes sociais. É o fascínio da descoberta impulsionado por um conteúdo cuja reputação e relevância é dada por pessoas a quem seguimos e, via de regra, conhecemos e respeitamos. O leitor e seus amigos são os editores.

Mas os tempos mudam rapidamente. Em março de 2011, o Zite inaugurou uma nova geração de aplicativos agregadores. Ele também tem uma interface simples, design enxuto e é configurado para colher links da rede de relacionamentos do usuário e exibir no aplicativo informações classificadas por temas selecionados previamente pelo leitor.

A diferença é que a partir da configuração inicial, há uma sofisticada engenharia que trata a informação antes dela ser exibida nas telas do iPad e iPhone. O Zite se vale da inteligência artificial para chegar a níveis impressionantes de personalização.

Funciona mais ou menos assim. Com a ajuda do Worio, um mecanismo de busca contextual, as urls compartilhadas nas suas redes de relacionamento na web começam a ser coletadas pelo Zite e a elas são associados uma série de metadados que ajudam a classificar os conteúdos. Dessa safra, o sistema descarta o que é spam e, em seguida, associa as urls aos usuários que as compartilharam. Cada usuário tem sua reputação medida, considerando número de seguidores e o nível de compartilhamento e RTs que seus posts alcançam na rede. O sistema combina, então, as reputações dos usuários que compartilharam o link e cria uma espécie de ranking de urls. As melhor classificadas podem ser exibidas na tela do usuário, desde que atinjam uma pontuação mínima, um valor que define o interesse que cada leitor terá pelo tema.

Já na tela do Zite, o sistema aprende com a experiência do usuário e vai redefinindo os critérios de exibição a partir dela. Ele mapeia o conteúdo e diferencia o que o leitor acessou, o que compartilhou, o que guardou para ler mais tarde e o que deixou de clicar para entender mais precisamente o interesse do usuário. Além disso, a cada link acessado, o leitor pode informar ao sistema se o conteúdo foi relevante ou não e selecionar numa lista de tags associadas ao conteúdo os temas e as fontes que o Zite deve considerar como de seu interesse.

A personalização melhora continuamente a oferta de conteúdo. Ou seja, duas contas com a mesma configuração podem se tornar muito diferentes em pouco tempo.

Foi entendendo a essência da internet que o Zite se transformou numa espécie de browser inteligente. Aliou a busca exata ao fascínio da descoberta e resgatou uma das principais características da internet, a personalização, que dá ao leitor a ideia de que ele é único, que tudo gira em torno de seu interesse, que ele é seu próprio editor.

Em agosto de 2011, cinco meses depois de lançado, o Zite foi comprado pela CNN.

A escolha da rede social certa

A ansiedade por participar desse universo em rápida expansão que é a internet social leva as empresas e instituições a criar perfis e contratar pessoas para criar conteúdo com uma urgência muitas vezes indevida. A pressa leva a escolhas erradas e insatisfação com os resultados.

A primeira coisa que uma empresa ou instituição que não tem cultura digital e não está habituada a usar as redes sociais para interagir com seu público deve fazer é observar. Se você é um iniciante, primeiro monitore o que as redes revelam sobre sua empresa, suas marcas, seus produtos e seus concorrentes. Faça isso sem atuar, sem ter ainda uma conta em redes sociais. O aprendizado com a observação, com o monitoramento, vai levar às redes sociais mais adequadas, aquelas que vão ajudar a construir um melhor relacionamento e obter melhores resultados na atividade que se vai implementar.

O aprendizado pode se dar de outras maneiras, sem ainda uma presença digital e até sem uma monitoração prévia, com pequenos gestos que ajudam na iniciação. Vou dar um exemplo. São Paulo terá mais uma edição da Restaurant Week. Por uma semana, 200 restaurantes do estado oferecerão um cardápio especial completo por um preço fixo, no almoço e no jantar. O evento tem, além do site, conta no Twitter e página no Facebook. Fiquei pensando na razão pela qual o evento não está presente no Foursquare, a primeira rede social que eu estudaria ter uma presença. Embora me pareça muito adequada, os organizadores optaram por não criar um vínculo com a rede. Devem ter seus motivos. Afinal, das 400 mil pessoas esperadas, 45 mil já aderiram à fan page no Facebook. Para os restaurantes, no entanto, há uma oportunidade de criar um relacionamento com esses novos clientes que vão experimentar o cardápio aproveitando os preços mais baixos da semana.

Chegando, enfim, no exemplo do pequeno gesto, o restaurante poderia elegantemente colocar um cartão em frente a cada comensal oferecendo a senha de seu wi-fi,  convidando-o a fazer um check-in no Foursquare, ler o que outros clientes escreveram sobre o restaurante e pedindo que deixem suas dicas para os próximos. É um modo de fazer com que cada cliente compartilhe as suas sensações com as suas redes de relacionamento, mas é um pouco mais. Ao sugerir o uso do wi-fi, a casa lembra indiretamente ao cliente que ele pode fazer imagens para Instagram, Pinterest ou Facebook, comentários em outras redes sociais ou simplesmente dizer aos seus amigos onde ele está, o que não deixa de ser um check-in.