Internet sob medida

[O texto que segue é a reprodução do artigo que escrevi para o e-book Para entender as mídias sociais – vol. 2, organizado pela expert em redes sociais Ana Brambilla e lançado na quinta-feira, 29 de março em São Paulo.

O e-book está disponível para download gratuitamente e tem textos de outros 37 autores.]

 

 

A internet é a primeira opção para quem quer ou precisa encontrar algo, seja uma informação, um objeto de desejo, uma rota ou até mesmo um amigo pra conversar. Ela tem de tudo e uma simples busca nos leva quase sempre ao resultado exato, à solução perfeita para o nosso problema. Porém, encontrar na internet exatamente o que se procura não ofusca o encanto que é se perder por ela. Há um lado sedutor na web, o da descoberta ao acaso, do vagar sem rumo, de um link para o outro, até que algo inusitado e fascinante domine toda a nossa atenção.

Esse navegar impreciso, caótico à primeira vista, não obedece a hierarquias. Esse modo de navegação deixa ao leitor o livre arbítrio, dá a ele o comando sobre a rota que vai traçar. E, quando assume o poder da escolha, ele é seu próprio editor.

Fora da rede, no mundo real (se é que a distinção ainda cabe), nossas escolhas são mais limitadas. No mercado, por exemplo, antes de fazer sua própria opção de compra, o sujeito se depara com escolhas feitas previamente por quem produziu um determinado bem. Há nisso uma tentativa de encontrar um padrão que aproxime ou adeque o bem ao gosto ou à necessidade da clientela. O desejo do consumidor está quase sempre à mercê da escolha prévia de um especialista ou submetido a pacotes que pretendem representar uma média de mercado. Ou seja, por trás de um balcão também há um editor.

Antes da internet, o acesso à informação seguia por esse caminho. Ao comprar uma revista ou um jornal, adquiríamos um pacote. Nosso interesse poderia ser específico, mas nos obrigávamos a levar o pacote completo. Havia somente duas opções: era tudo ou nada.

A internet inverteu a lógica. Ao fragmentar todo o seu conteúdo e criar laços entre os fragmentos, a web tornou a ideia do pacote obsoleta. O leitor pode determinar sua experiência de navegação, como se fosse o único consumidor de toda a informação disponível.

Mesmo assim, nos primórdios da internet, muitos sites e portais de informação viam no link externo a porta por onde perderiam seus leitores. Os diques para conter a onda pareciam simples, bastava não dar links externos que a audiência se manteria por mais tempo nos limites do seu domínio. Não contavam com a astúcia do leitor. Ele já sabia como chegar diretamente às fontes da informação. Essas fontes tinham agora um canal próprio, que fala diretamente com o público, sem necessariamente a intermediação de um veículo de mídia. Com as redes sociais, esses canais se multiplicaram exponencialmente e os links se disseminaram pela rede, divulgados e compartilhados por todos os participantes.

Perdida a batalha do link, a esperança para a antiga mídia renasceu com os primeiros tablets. O modelo fechado proposto pelos aplicativos parecia a redenção da indústria: uma única porta de acesso, sem saídas laterais, links internos e a possibilidade de colocar uma bilheteria na porta.

Mas os tempos mudaram e a esperança agora morre antes. O modelo de pacote fechado proposto pela mídia, com informações selecionadas e classificadas por um editor, que reproduz com fidelidade os conteúdos publicados nas versões impressas, que recupera os modos lineares de navegação, que obedece à periodicidade do meio offline, agrega algum conteúdo multimídia e não parece estar preocupado com a experiência de uso do leitor não vingou.

No mundo dos tablets, quem emergiu foram os agregadores. Não aqueles antigos serviços que agregavam feeds de RSS, como Netvibes. As estrelas agora são novos e modernos aplicativos, como Flipboard, que aliam design com informação oriunda de múltiplas fontes, principalmente do que é compartilhado pelas pessoas que estão na rede de relacionamentos do leitor, nas redes sociais. É o fascínio da descoberta impulsionado por um conteúdo cuja reputação e relevância é dada por pessoas a quem seguimos e, via de regra, conhecemos e respeitamos. O leitor e seus amigos são os editores.

Mas os tempos mudam rapidamente. Em março de 2011, o Zite inaugurou uma nova geração de aplicativos agregadores. Ele também tem uma interface simples, design enxuto e é configurado para colher links da rede de relacionamentos do usuário e exibir no aplicativo informações classificadas por temas selecionados previamente pelo leitor.

A diferença é que a partir da configuração inicial, há uma sofisticada engenharia que trata a informação antes dela ser exibida nas telas do iPad e iPhone. O Zite se vale da inteligência artificial para chegar a níveis impressionantes de personalização.

Funciona mais ou menos assim. Com a ajuda do Worio, um mecanismo de busca contextual, as urls compartilhadas nas suas redes de relacionamento na web começam a ser coletadas pelo Zite e a elas são associados uma série de metadados que ajudam a classificar os conteúdos. Dessa safra, o sistema descarta o que é spam e, em seguida, associa as urls aos usuários que as compartilharam. Cada usuário tem sua reputação medida, considerando número de seguidores e o nível de compartilhamento e RTs que seus posts alcançam na rede. O sistema combina, então, as reputações dos usuários que compartilharam o link e cria uma espécie de ranking de urls. As melhor classificadas podem ser exibidas na tela do usuário, desde que atinjam uma pontuação mínima, um valor que define o interesse que cada leitor terá pelo tema.

Já na tela do Zite, o sistema aprende com a experiência do usuário e vai redefinindo os critérios de exibição a partir dela. Ele mapeia o conteúdo e diferencia o que o leitor acessou, o que compartilhou, o que guardou para ler mais tarde e o que deixou de clicar para entender mais precisamente o interesse do usuário. Além disso, a cada link acessado, o leitor pode informar ao sistema se o conteúdo foi relevante ou não e selecionar numa lista de tags associadas ao conteúdo os temas e as fontes que o Zite deve considerar como de seu interesse.

A personalização melhora continuamente a oferta de conteúdo. Ou seja, duas contas com a mesma configuração podem se tornar muito diferentes em pouco tempo.

Foi entendendo a essência da internet que o Zite se transformou numa espécie de browser inteligente. Aliou a busca exata ao fascínio da descoberta e resgatou uma das principais características da internet, a personalização, que dá ao leitor a ideia de que ele é único, que tudo gira em torno de seu interesse, que ele é seu próprio editor.

Em agosto de 2011, cinco meses depois de lançado, o Zite foi comprado pela CNN.

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