Modelo de negócio ou modelo de negação

No domingo tentei comprar a edição web de um jornal do Sul do país. Estava interessado em um texto específico, mas, sem a esperança de poder pagar somente por ele, pensei comprar a edição do dia, ler o que me interessava e descartar o restante. O leitor, no entanto, é um herói no Brasil. Para ler um único texto, a publicação exigia que eu fizesse uma assinatura mensal. Resultado: acabei pedindo ajuda pelo Facebook. Em instantes, li o artigo sem pagar nada.

The DailyEsse episódio guarda semelhanças com as edições para tablet de vários periódicos brasileiros. Embora as publicações não tenham nas versões digitais os custos de impressão e alguns de distribuição – e o leitor arque com a compra do aparelho, a conexão de internet para fazer o download e com o espaço para armazenamento -, as edições para tablet cobram preço superior ao do impresso. Será que este é um modelo de negócio para vingar ou é um modelo de negação do negócio?

Hoje, Jeff Jarvis comenta no The Guardian o anunciado fechamento do The Daily, criado em fevereiro de 2011 e visto como a redenção do modelo impresso levado ao digital; a possibilidade de manutenção dos modelos de produção e remuneração já testados nos impressos; a vingança contra o modelo gratuito da internet que fez sangrar as empresas de mídia nessa última década.

Jarvis lista três razões pelas quais a morte do The Daily estava anunciada desde o começo:

  1. O Paywall 
  2. Produto destinado a um único tipo de aparelho
  3. Edição em pacotes

Não quero repetir os argumentos de Jarvis, mas quero comentar dois deles.

O que poderia manter ativa a publicação e garantido seu modelo de cobrança pelo conteúdo seria a sua relevância, a sua originalidade. Porém, o texto de Jarvis dá pistas sobre os obstáculos desse caminho. Ele reproduz declaração de Larry Kramer, do USA Today, ao explicar por que não levanta um paywall em seu jornal: “nós não somos suficientemente originais” para cobrar pelo conteúdo.

Os meios digitais derrubaram limites no jornalismo. Um deles é a obrigação de criar pacotes determinados pelo tempo. O jornalismo online pode se livrar do fantasma do fechamento, da exigência de seguir prazos definidos pela indústria e não pela maturidade do conteúdo. Um ciclo de 24 horas ou de 7 dias consolida a informação do período, mas não melhora o resultado da edição para o leitor, pelo contrário. Para os leitores já habituados a acessar informações pela internet, esse ciclo obrigatório não faz sentido. É uma pena que os meios façam de tudo para preservá-lo.

4 comentários sobre “Modelo de negócio ou modelo de negação

  1. Você não tem apenas um modelo de negócio antigo. Você tem pessoas que pensam e, principalmente, fazem a gestão dos veículos de maneira antiga, como o faziam nos anos 1970, 80, 90. É preciso trabalhar em duas grandes frentes.
    Normalmente vejo apenas artigos abordando uma delas, o core business do negócio: como vender conteúdo digital, como tornar o negócio rentável, como evitar a decadência anunciada dos meios impressos, etc. Porém, segundo ponto: é preciso preparar os gestores dos veículos para proporcionar conteúdo relevante ou, o que disse Larry Kramer, ao inverso: conteúdo de qualidade, diferenciado, inovador, ousado, único, atrativo.
    Como você faz isso? Reaparelhando o capital humano das organizações de mídia. Precisamos de mais jornalistas que naveguem pelas diversas esferas do mundo digital, mas é preciso tê-los em número maior.
    Frequentemente, e por experiência própria como jornalista e leitor ávido, percebo que as notícias se repetem, ainda mais se você for obrigado a ler notícias produzidas por um único grupo de comunicação que domina seu estado.
    Ou seja, por uma economia que considero míope, se reduz o tamanho e a abrangência das redações e você entrega ao leitor o que? Novamente, mais do mesmo. Assim portais são cópia dos impressos ou vice-versa.
    Por isso entendo que o novo modelo de negócios passa, necessariamente, pelo investimento em material humano, dotando as redações de um maior número de profissionais (mais repórteres e editores que são ao mesmo tempo editores, repórteres e chefes de reportagem) com qualificação acima da média (graduação, pós-graduação, mais de uma graduação, curso de idiomas, vivência no exterior, etc) para produzir notícias acima da média.

    1. Cristiano, concordo com você que o repertório profissional do jornalista precisa ser ampliado, mas tenho minhas dúvidas se isso passa pela indústria da mídia. Essa indústria, tal como a conhecemos hoje, já não encontra as alternativas para sua sobrevivência. O jornalismo não vive necessariamente a mesma crise. Profissionais mais empreendedores encontram e continuarão encontrando novos caminhos para o jornalismo, disso não tenho dúvida alguma.

  2. eu não queria ser gestor de uma empresa jornalística hoje. passei alguns meses sem tocar num jornal (digital, claro, que eu não leio papel há muito tempo) e depois que retomei a leitura, reparei que não estava perdendo NADA. sério. NADA. se eu ainda fosse jornalista, estaria procurando outros meios de ganhar a vida. ainda bem que fiz isso há bastante tempo 😉

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