Monitorar comentários é responsabilidade de quem assina a matéria

Redes sociais como Twitter e Facebook sequestraram parte das discussões que antes se davam num ambiente pouco considerado nas Redações: o dos comentários feitos pelos leitores. E aquilo que já era secundário foi se tornando cada vez menos relevante. Parte da mídia liberou totalmente a publicação, sem aparentemente se preocupar com o que ali está registrado; alguns sites retiram a área de comentários quando, vejam só, os temas são muito polêmicos; e uma outra parte mantém os comentários sob moderação.

Na verdade, mesmo os que parecem querer se resguardar, os que publicam comentários somente após uma etapa de moderação, o fazem mais para se proteger do que para garantir um bom debate e a fidelidade das informações que por ali aportam. Não é recomendável que um grupo de pessoas, que não estão envolvidas com o que foi publicado e na maioria das vezes desconhecem o contexto, tenha sob sua responsabilidade a decisão do que pode ser levado a público.

A má notícia que tenho insistido em divulgar, principalmente nas minhas aulas no Master em Jornalismo Digital, é que quem publica é eternamente responsável pelo que escreveu e pelo que o público postou em sua área de comentários. A manifestação do público é parte integrante do conteúdo. Uma informação incorreta publicada por um leitor deve ser esclarecida. Nenhuma informação errada deve permanecer sem o devido esclarecimento nessa área. E isso é melhor feito quando quem participou da apuração monitora a participação do público.

Obviamente, essa atenção do repórter deve ser compensada com ferramentas que permitam a ele monitorar com facilidade e sem perda de tempo. Essa monitoração deve ser reativa, com intervenções pontuais, para que o repórter não se envolva em discussões desnecessárias. Esse envolvimento, que comecei a testar com sucesso em 2007 na Redação do clicRBS, é extremamente benéfico. Diante dos comentários dos leitores, o repórter se depara com inconsistências em seu texto, é cobrado por informações que estão ausentes, mas esclarece, dá uma atenção ao leitor e aos demais que virão, e pode divulgar outros conteúdos do próprio site que sejam relevantes.

Se você acha isso um sonho distante, algo inaplicável numa Redação, mire-se no exemplo do Washington Post. O site do Nieman Journalism Lab conta a experiência que o jornal está fazendo – WP experimenta uma nova arma na luta contra a trolagem: humanos. O Post tem seis pessoas encarregadas de fazer a moderação dos comentários postados por leitores e agora reforça a equipe com o staff da Redação. Coloca na linha de frente com o leitor quem efetivamente apurou ou se envolveu com a produção da notícia (veja uma delas na imagem acima). John de Nunzio, editor de interatividade do WP, explica na seção Ask the Post algumas das ações adotadas no jornal.

É difícil fazer uma medição, mas tenho a certeza de que a publicação que adota esse tipo de postura diante do leitor ganha a sua confiança. Traz de volta a discussão para o ponto de origem da informação e enriquece o conteúdo. E, em tempos bicudos como este para a mídia, é também um tento, já que marca uma diferença entre a publicação e os aplicativos impessoais que acabam subtraindo a audiência de quem gerou a informação.

3 comentários sobre “Monitorar comentários é responsabilidade de quem assina a matéria

  1. Como sempre, um belo post. Sou 200% a favor dessa linha de atuação, por mais que possa acabar elevando o custo do jornal, seja no tempo do jornalista que fez a matéria (e que poderia estar escrevendo outros conteúdos) ou mesmo da equipe de moderação. Como tu bem dissestes, essa é uma ação que visa tornar o conteúdo mais interativo, colaborativo e, dessa forma, ao meu ver, mais pessoal e social.

    A matéria abaixo é um ótimo exemplo disso.
    Veja que o próprio Tenente utiliza o espaço de comentários para falar com a população e informar as medidas a serem tomadas no caso.

    http://wp.clicrbs.com.br/visor/2012/01/30/cai-na-internet-foto-de-policial-bulinando-vaca-da-cowparade-em-florianopolis/?topo=67,2,18,,,67

    1. Obrigado, Giresse. Não creio que seja necessário aumentar os custos, uma ferramenta que permita selecionar os comentários pelo nome de quem publicou a notícia é suficiente para que haja agilidade nessa tarefa.

  2. Sérgio, sua colocação foi ótima, pois existe a tecnologia para isso, o que falta é coragem, já que em muitos comentários observamos que a matéria não foi apurada corretamente, deixa dúvidas sobre o que realmente ocorreu, e pior de tudo, os leitores interagem, dão até respostas as dúvidas deixadas na matéria,e nada, não há uma mínima interação da Redação.

    Muito bom!

    Abraços,

    Mario Cesar

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