No mundo online, você tem que andar na linha

Você é capaz de identificar um limite entre a sua vida pública e a sua privacidade? Pense bem: é possível controlar a exposição de nossas vidas, de nossas relações, os nossos sentimentos e as opiniões a nosso respeito? Será que nós ainda somos seres privados?

Faço essa reflexão depois de ler dois textos no blog de Seth Godin, um dos expoentes da social media, em que ele se avizinha dessa questão perguntando se é possível que o caráter de uma pessoa no final de semana seja diferente do que ela expressa nos demais dias. Afinando o registro, Godin quer saber se podemos estabelecer no ambiente familiar conduções éticas diferentes daquelas que empregamos quando estamos no trabalho, interagindo com os diversos públicos que compõem o mundo corporativo.

Para me cercar de alguns elementos, resolvi mapear as informações que pudesse encontrar na internet de e sobre uma determinada pessoa. Escolhi aleatoriamente alguém com quem tenho contato eventual e comecei a investigar tudo o que podia sobre ela. Em 40 minutos já tinha traçado um perfil bem razoável com informações coletadas na rede.

Descobri sua idade, profissão, onde é seu trabalho e sua relação difícil com uma nova chefia, as medidas de seu corpo e como isso a angustia, onde mora, o que há no seu iPod, que escreve bem, que se acha feia, para onde viajou e o que fez neste verão e no verão passado, que tem poucos amigos e que um sujeito ficou uma arara com o que ela escreveu sobre ele. Porém, não sei quem ela ama, não encontrei uma foto sua com amigos, nem com a família – aliás, não sei se ela tem uma família. Fica claro que ela administra o nível de exposição que quer ter. Ou seja, ela revela suas ações e pensamentos, opiniões e movimentos, mas há pouco sobre quem se relaciona com ela e quase não há imagens suas, mesmo que publicadas por seus amigos. Há um limite evidente entre seu mundo físico, palpável e real, e tudo o que está vinculado a um plano intelectual. Se no primeiro plano ela é estritamente econômica, no segundo ela se deixa mostrar por inteiro.

Na internet, é claro, podemos encontrar perfis bem diferentes, pessoas cujos hábitos e ações contrastam com os dessa jornalista. A rede está repleta de pessoas que publicam suas fotos, registram seus momentos íntimos, permitem o rastreamento de seus movimentos, não escondem seus pontos de contato (e-mail, endereço físico e telefone), divulgam suas atividades no momento em que elas são realizadas e parecem não se importar em revelar o que há nas suas gavetas ou no seu estômago. Também essas, ainda que não se deem conta, limitam seu espaço de privacidade. E elas agem assim, consciente ou inconscientemente, motivadas por questões de segurança, de inibição, vergonha, receios diversos e até – por que não? – por não saber o que dizer ou até por ainda não saber como lidar com os instrumentos que a rede oferece.

Muito em breve, porém, ninguém terá mais controle sobre a própria privacidade. Com a internet, o limite do que é privado se reduz a cada post que você publica em seu blog, um comentário publicado em outro, uma foto sua publicada no Flickr, um perfil seu no Orkut, uma câmera apontada para você, um movimento registrado no twitter. No mundo online, você vai ter que andar na linha.

Some a isso uma nova realidade. A internet subverte a linearidade da vida e embaralha a sua linha de tempo. Você não tem mais um passado facilmente identificado: você agora é uma soma de presentes e seus erros e arrependimentos não são exibidos necessariamente nessa ordem.

Desista, não haverá mais como não se expor. A rede dará visibilidade total para o nosso microcosmo, nossa vida miúda explodirá em bites e pixels, nossa paróquia estará globalizada. E todos terão elementos para saber quem você realmente é.

A boa notícia é que, antes de pensar num Grande Irmão, uma entidade que segue todos os seus passos, você deve lembrar que estamos vivendo uma era de democratização de conhecimento e de compartilhamento, em que todas as formas de autoritarismo começam a arrefecer, tanto na política quanto no mercado. E atente para um novo tempo em que você não terá privacidade, mas terá sua reputação – uma sociedade em que seu caráter será seu maior triunfo e será assim em todos os dias da semana.

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