Nunca fomos tão jovens

Estou participando de um seminário da Inma em São Paulo, evento dirigido aos meios impressos, mas que inevitável e invariavelmente visita o online. É interessante como sempre está muito presente no discurso dos jornais a questão do hiperlocalismo e do público jovem. Sobre localismo vou comentar em outra oportunidade, sobre o público vale falar agora.

Por casualidade, eu hoje ainda contava ao Cézar Paz (da AG2) que uma das coisas que mais me causou estranhamento na vida – e já há alguns anos – foi o dia em que me dei conta de que eu era mais velho que o meu pai. Ou seja, eu já tinha registrada em minha mente uma imagem do meu pai com uma idade inferior àquela que eu tinha. Passou o tempo e eu revisei essa questão. Hoje, os limites estão difusos e, muitas vezes, inexistem. Meu pai, com a idade que estou hoje, não vestia jeans nem camiseta, não ouvia as músicas que eu ouço, não tinha amigos com a metade da sua idade como eu tenho e não fazia quase nada do que eu faço. Na outra ponta, meu filho de dez anos escuta e canta músicas dos Beatles, sabe quem foi Iuri Gagarin, lembra do ataque às torres gêmeas e torceu pelo Obama assim como muita gente da minha idade torceu. Agora eu sei que meu pai, nas minhas lembranças, nunca foi tão jovem quanto eu sou agora.

Se há algum nexo nisso que acabo de relatar, por que, então, insistimos em separar as coisas por faixas etárias? Que diferença faz se a audiência tem 10% a mais na faixa de 24 a 30 ou de 30 a 35? Por que eu deveria tratar meu pai e as pessoas da idade dele como “a faixa de pessoas com mais de 65 anos”? Não seria melhor considerá-lo como alguém que tem mais tempo livre? Tenho amigos que trabalham só em alguns momentos (nem falo de dias) da semana. Hoje ouvi uma executiva comentar no vôo que trabalhava em São Paulo de terças a quintas e o resto do tempo em Porto Alegre, na sua própria casa. Ela tem um trabalho como qualquer outro, é ocupada e tem metas. Mas tem uma coisa que é semelhante ao que tem meu pai e aqueles meus amigos, ela tem controle e gestão de seu tempo livre. Então, me respondam: é mais inteligente oferecer informação, produtos etc para quem tem tempo livre ou tudo isso deveria ser empacotado, rotulado e destinado para a terceira idade, para os aposentados na faixa etária de mais de 65 anos?

As faixas já não servem para separar traços comuns. As características, necessidades e gostos pessoais transitam em todas as faixas e está mais do que na hora de se olhar para isso de uma forma perpendicular à idade.

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