O mundo real em tempo real

Foto de João Pina sobre os protestos no Brasil publicada na New Yorker

A perplexidade diante das manifestações que tomaram ruas e cidades brasileiras nos últimos dias tem alguma explicação na nossa insistência em tentar analisá-las com as referências que tínhamos – e que já não mais se aplicam – e na nossa incapacidade de refletir sobre o valor da experimentação.

Queremos aplicar o que está ocorrendo ao nosso modelo mental já estabelecido. Queremos consolidar, queremos fatos concretos, sólidos, quando o que está acontecendo é líquido, é fluxo e contrafluxo. Buscamos lideranças, pessoas com autoridade, com rosto e passado, que possam nos dizer o que tudo significa, para onde as coisas vão, o que será o amanhã… Não sabemos lidar com o que não é liderado. O que fazer quando as fontes também são líquidas, que aspas usar nesse universo de cartazes?

Algumas chaves para o entendimento estão na experimentação. Passamos muito tempo tentando colocar em dimensões diferentes as redes virtuais e as redes reais. Menosprezamos as redes sociais como espaço de exercício da cidadania e não prestamos a devida atenção ao que ali se experimentava. Agora, vemos que não são dois mundos. As redes virtuais são somente ferramentas a serviço de cada um de nós, são canais por onde corre e se multiplica nossa interação com o mundo e com as pessoas que nos cercam e flui o que registramos das nossas vidas, nossas opiniões, nossas manifestações.

TwitterParade – aplicativo japonês que gerava passeatas a partir de hashtags ou listas do Twitter

Nas ruas, as manifestações não têm uma única liderança, não têm um único objetivo e nem foco específico. As pessoas conduzem cartazes com protestos, reivindicações ou desejos. Os temas se misturam, alguns são contraditórios, mas todos são legítimos. Qual a diferença da rua para sua timeline no Twitter ou no Facebook?

A experimentação ajuda no amadurecimento. Foi a convivência com o tempo real e a experiência de publicação de conteúdo próprio nas redes virtuais que criou o ambiente propício ao jornalismo em tempo real e ao jornalismo participativo.

A velocidade com que as pessoas se aglutinam e os grupos se dissolvem também nos deixa atônitos. Não percebemos que as redes sociais são somente uma base de conexão e que nelas podemos criar comunidades, que surgem e somem num piscar de olhos. As pessoas trouxeram para as ruas a experiência de comunidades efêmeras que já viviam nas redes sociais. Cada dia do movimento nas ruas era diferente. Cada dia era uma comunidade que se construía muito rapidamente e se dissolvia depois de algumas horas. Talvez não seja necessário perguntar: e agora, para onde vai esse movimento? No que isso vai dar? Já deu.

As manifestações geraram mais experimentação e deixam algumas reflexões. Uma delas é o modelo de representação política. Num mundo em tempo real, em que boa parte das pessoas já têm identidades digitais, que convive com mudanças rápidas de fluxo, conexões globais e no qual é possível medir a temperatura e a pressão da rede a todo o momento, o modelo atual de representação me parece estar em xeque. Não é a toa que “não me representa” passou a ser um termo cada vez mais usado na rede e nas ruas e nesse final de semana o governador Tarso Genro (PT-RS) já falasse em candidaturas avulsas, sem partido.

4 comentários sobre “O mundo real em tempo real

  1. Parabéns pela análise. Essa parte é especialmente verdadeira: “Nas ruas, as manifestações não têm uma única liderança, não têm um único objetivo e nem foco específico. As pessoas conduzem cartazes com protestos, reivindicações ou desejos. Os temas se misturam, alguns são contraditórios, mas todos são legítimos. Qual a diferença da rua para sua timeline no Twitter ou no Facebook?”.

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