O prazo de validade da informação

Saul Bellow - Reprodução do The New York Times

Quando Saul Bellow morreu, em 2005, procurei no site do The New York Times o obituário do escritor. Encontrei muito mais do que procurava. Junto à notícia da morte, havia uma relação de textos de e sobre ele, de várias datas. Vasculhando a lista, bati os olhos em um título, Talk with Saul Bellow, cuja data de publicação era 20 de setembro de 1953, nove anos antes da publicação de Herzog.

Nos anos 90, vasculhei os arquivos da Folha da Tarde, em Porto Alegre, para resgatar textos esquecidos de Rubem Braga, que escreveu para o jornal num período em que esteve exilado no sul, em 1939, no início da 2ª guerra. A seleção final dos textos foi feita por Carlos Reverbel e rendeu o livro de crônicas Uma Fada no Front, que publiquei pela Artes e Ofícios.

Não pude deixar de comparar a fácil descoberta dos textos de Saul Bellow com a difícil busca por textos, sem indicação de data, no velho arquivo da Caldas Júnior.

Desde aquele momento ficou claro para mim a importância do acervo na internet. Passei a pensar o site de um veículo de comunicação como o ambiente em que toda a produção, não importa em que plataforma tenha sido produzida, devesse estar armazenada e disponível para o público. O material já veiculado e em arquivo pode ter um valor inestimável para a audiência. Depende do editor fazer boas escolhas e dar visibilidade aos conteúdos na hora certa.

Volto ao tema por dois motivos.

O primeiro é o anúncio da digitalização de 137 anos do acervo do Estadão. Com boa indexação e atenção editorial, isso será ouro nas mãos dos editores do estadao.com.br.

O segundo é a publicação no domingo, 1º, na Folha, do artigo A síndrome do “já demos isso” [link somente para assinantes], da ombudsman Suzana Singer. Ela escreve sobre um mal que afeta as redações e que consiste na desvalorização de informação que já foi noticiada anteriormente, pela concorrência ou pelo próprio veículo, mesmo que o tema volte com força à pauta do público. É o caso clássico e exemplar da revista que reserva um bom espaço para a estreia de um filme no exterior e minimiza a cobertura quando a a fita estreia por aqui. A justificativa “já demos isso”. Alguns veículos vão ainda mais longe e ignoram assuntos quando a concorrência já deu publicidade prévia. Privam a audiência de conteúdos importantes para não passar recibo de retardatário.

A questão é polêmica nos veículos que obedecem periodicidade ou grade de programação, mas o jornalismo online não está imune a isso. Os meios online, no entanto, podem se vacinar e fazer o bom trabalho quando têm o acervo à mão. O editor atento não deve penalizar a audiência. O bom editor destaca o que há de bom e oportuno para seu público. Dentro do prazo de validade e com o alerta correto de que se trata de conteúdo de acervo, importa menos ao leitor a data em que foi publicado.

Se você tiver interesse, recomendo a leitura de outros dois posts que publiquei sobre o assunto:

O que é novo e o que é velho na internet

A internet é plana

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