Uma imagem vale por mil palavras. Como dizer isso sem as palavras?

“Uma imagem vale por mil palavras; mas diga isso sem as palavras”

Millôr Fernandes

Há anos tento encontrar, sem sucesso, uma resposta visual para essa provocação de Millôr Fernandes. Mestre do trocadilho, mas também um excelente cartunista, Millôr usa a palavra e o desenho com igual desenvoltura. Ao ouvi-lo fazer a defesa do texto, tive a impressão de estar diante de alguém que tinha solucionado a charada, mas guardava a chave malandramente para si.

Populares registram com seus celulares imagens de um incêndio no Cairo. Reprodução de foto (AP) publicada na capa da Folha de S. Paulo de 9/5/2011

Filha caçula da linguagem, a escrita, o desenho da fala, consegue descrever uma imagem, mas também seu contexto, revela o que parece invisível e pode ir muito além. Só por isso, o texto já se tornaria a forma mais importante de registro da nossa cultura. Mas a escrita contou em dois momentos com um grande impulso da tecnologia. Primeiro com as técnicas de impressão e depois com a internet. E isso foi bom. Ruim foi a extrema dependência do texto para a comunicação.

A mesma tecnologia está resgatando a força das imagens como registro de fatos, sentimentos e até mesmo de visões de mundo. Primeiro com a fotografia, mais tarde com o cinema e a televisão. Agora com a internet, as câmeras digitais e aparelhos celulares.

Hoje é mais comum alguém ter em mãos alguma forma de captação de imagens do que um lápis ou uma caneta. É só uma percepção, mas faça você mesmo o teste, perguntando ao sujeito que está ao seu lado.

Essa legião de pessoas equipadas e conectadas, a facilidade de registro e de compartilhamento dão à imagem uma popularidade que há muito lhe faltava. E criam as condições para um renascimento.

Os aplicativos estão fazendo a sua parte. Conheço pessoas [você deve conhecer também] que ou diminuíram muito ou abandonaram de vez as postagens textuais em mídias sociais e em blogs. Optaram pelo registro daquilo que chama a atenção de seu olhar, a captura de um momento especial, ainda que muitas vezes pintado por filtros artificiais.

Precisa legenda?

Cada vez mais utilizado, o instagr.am é uma prova disso. No post anterior, falei de um aplicativo similar, o socialcam, uma interessante alternativa para imagens em movimento. Brevemente será mais uma prova.

As imagens postadas com esses aplicativos trazem consigo informações que ajudam a contextualizá-las. É o caso das informações de geoposicionamento. A localização, data, horário e a imagem conseguem uma integridade que muitas vezes dispensa a legenda textual. É o caso do exemplo da foto ao lado.

Mediar a fantástica geração de imagens captadas pelas pessoas que testemunham fatos e flagram situações de interesse público é um desafio a mais para os editores de meios digitais. A boa imagem há muito deixou de ser privilégio de fotógrafos com crachá da publicação. E pode não estar mais nem no Twitter nem no Facebook. Tem mais chances quem também estiver de olho nas redes específicas.

O registro do testemunho visual é a melhor contribuição que os usuários podem dar ao jornalismo participativo. Cabe aos editores estarem atentos a isso.

O renascimento da imagem talvez não abale a hegemonia da escrita. É possível também que a charada do Millôr não tenha uma solução aparente nem mesmo para ele. A dependência exclusiva do texto não é boa para ninguém assim como não foi para o escritor, traído ele próprio pela escrita, de forma definitiva. Quando foi registrado, em 1924, o escrivão grafou seu nome um pouco diferente do que deveria ser. Assim, sem que ninguém tivesse percebido, o garoto Milton Viola Fernandes, forçado a aceitar o que estava escrito, passou a atender por Millôr.

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