O Twitter, o seu direito de opinião e a responsabilidade do jornalista nas redes sociais

No Brasil, todos são um pouco médicos, um pouco treinadores de futebol, conforme um dito muito popular. Nem uma coisa nem outra. A verdade por trás do ditado é que o brasileiro é um sujeito que tem opinião e gosta de manifestá-la. Isso não seria um problema se todos tivéssemos informação suficiente para produzir uma elaboração própria para os assuntos sobre os quais nos manifestássemos. Opiniões informadas. Não é assim, mas para o jornalista é hora de atuar com responsabilidade.

As redes sociais – e principalmente o Twitter – têm sido responsabilizadas pela disseminação de opiniões deformadas e, mais grave, de informação imprecisa, incorreta ou deturpada. Calma lá. O mundo mudou rapidamente, mas as pessoas nem tanto. Os “cidadãos comuns” ganharam alto-falantes, mas os processos que conformam suas opiniões e sua índole não mudaram desde que eles começaram a se manifestar na internet. Diferente de antes, há agora um espaço de convívio em que os defeitos e as virtudes podem eventualmente obter uma grande repercussão. Na maioria das vezes, nada provocam.

O Twitter, já escrevi aqui, mede o pulso da rede. E é o melhor lugar hoje para se abastecer de informação instantânea. Da notícia que brota, in natura, nos mais diversos lugares do planeta, direto da fonte, até os mais maldosos boatos. A função do jornalista é zelar pela boa informação. E seu papel no Twitter, mais do que disseminar links para gerar tráfego de audiência, é refutar a informação incorreta, enriquecer a informação inconsistente e ajudar a reformar a opinião deturpada. Esclarecer é a função eterna do jornalista, em qualquer meio. Na internet, ele pode espalhar a informação corretamente apurada com a mesma velocidade do boato e com a vantagem da credibilidade da sua marca pessoal.

Hashtag #RipCher que sugeria erradamente a morte de Cher

Acompanhar essa forte correnteza de informações é uma tarefa demasiadamente complexa, mas atentar para o que os TTs, os assuntos do momento, trazem à tona é uma obrigação. Basta clicar em uma das hashtags da lista para ver a afluência vertiginosa de tuítes. Nesse fluxo, boa parte dos tuítes revela que as pessoas estão boiando, à procura de alguém que as esclareça. O episódio da invasão do #Pinheirinho, a área ocupada, e agora desocupada, em São José dos Campos é exemplar. Enquanto a mídia atuante no Twitter estava preocupada com a promoção de seus links, os boatos ocuparam um espaço em que a verdade afundava. Os canais de jornalismo no Twitter deveriam atacar rapidamente a inverdade e o boato, deixar claro que o que corre nas timelines ainda não está confirmado, se este for o caso, que seus jornalistas estão averiguando os fatos denunciados etc.

O que quero dizer é que o Twitter, como qualquer outra rede social, não deveria ser somente uma ferramenta de marketing para os veículos de informação, online ou off-line. Entendido como um meio autônomo, o Twitter exige do jornalista o mesmo rigor na apuração e no esclarecimento dos fatos que estão sendo comentados. O jornalista deve agir com a agilidade do bombeiro, ele tem o dever de intervir quando a informação falsa ou não apurada corretamente está emergindo.

Não reconhecer seu papel nesse meio e o direito à opinião, mesmo quando deturpada, das pessoas que se manifestam pelo Twitter é um sinal de prepotência. Atribuir ao Twitter a responsabilidade pelo que as pessoas dizem é uma leviandade tão grande quanto disseminar informação imprecisa. E não ajuda a aperfeiçoar a opinião pública.

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2 comentários sobre “O Twitter, o seu direito de opinião e a responsabilidade do jornalista nas redes sociais

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