Niiiws, o aplicativo para iPad que agrega conteúdos de jornais brasileiros

Ler notícias em português em aplicativos agregadores para tablets ou smartphones não é uma experiência fácil e prazenteira. Para acessar notícias publicadas no Brasil nesses agregadores, o leitor até agora estava limitado às informações compartilhadas em sua rede de relacionamento, principalmente no Twitter e Facebook, e relacionadas em agregadores como Flipboard, por exemplo. Melhor, mas nem sempre mais fácil, era registrar o RSS de suas fontes preferidas em português em aplicativos como Feedly ou Google Currents. Tudo muito longe da experiência de um Zite.

Ontem recebi o link para fazer o download do Niiiws, um aplicativo que tem criado versões para diferentes países e lançou uma versão brasileira que se propõe a oferecer as “notícias mais relevantes dos jornais brasileiros no iPad”.

O aplicativo separa os conteúdos por temas, reúne conteúdo dos principais sites de jornais brasileiros (não percebi a presença d’O Globo) e, bom para os sites, em vez de reproduzir o conteúdo das páginas num template próprio, o agregador se transforma numa espécie de browser e abre a página do site abaixo de uma barra do Niiiws. Imagino que nesse caso, contabilize audiência e a exibição dos anúncios presentes nas páginas originais.

O problema começa na seleção das informações. O Niiiws não distingue, a princípio, conteúdos de interesse mais amplo das notícias regionais. Assim, notícias de interesse local disputam espaço com informações nacionais e internacionais. Isso não seria um problema se houvesse a possibilidade de fazer escolhas prévias de veículos, temas e local de meu interesse. Essa configuração é possível, mas somente quando o leitor acessa uma determinada notícia. No contexto da notícia, e de uma maneira discreta, o Niiiws se aproxima do Zite e oferece a possibilidade de “pedir” mais informações, de dizer ao software que quer receber dali em diante mais conteúdos de um determinado veículo, tema ou – boa novidade – do autor do texto.

Se o aplicativo funcionar como funciona o Zite, teremos algo muito bom nas mãos, mas o leitor precisará fazer um polimento, uma lapidação, para personalizar o aplicativo e torná-lo útil e necessário.

Há duas coisas que não dependem do leitor, mas que o software precisará fazer para melhorar o Niiiws. Uma delas é trazer junto com a informação a data e o horário em que as notícias foram publicadas (acessei uma notícia na Home que já estava publicada há quase 24 horas pensando tratar-se de algo do dia). Outra é fazer um filtro que identifique o veículo ou o conteúdo mais relevante para uma determinada informação. Sobram fotos do ator Michael Clarke, falecido no dia 3 de setembro, e da derrière da Mulher Pêra (com acento/assento), candidata a uma vaga na câmara de vereadores de São Paulo. Como os assuntos foram destaque em vários veículos, o aplicativo empilha mais do mesmo na tela do iPad.

Internet sob medida

[O texto que segue é a reprodução do artigo que escrevi para o e-book Para entender as mídias sociais – vol. 2, organizado pela expert em redes sociais Ana Brambilla e lançado na quinta-feira, 29 de março em São Paulo.

O e-book está disponível para download gratuitamente e tem textos de outros 37 autores.]

 

 

A internet é a primeira opção para quem quer ou precisa encontrar algo, seja uma informação, um objeto de desejo, uma rota ou até mesmo um amigo pra conversar. Ela tem de tudo e uma simples busca nos leva quase sempre ao resultado exato, à solução perfeita para o nosso problema. Porém, encontrar na internet exatamente o que se procura não ofusca o encanto que é se perder por ela. Há um lado sedutor na web, o da descoberta ao acaso, do vagar sem rumo, de um link para o outro, até que algo inusitado e fascinante domine toda a nossa atenção.

Esse navegar impreciso, caótico à primeira vista, não obedece a hierarquias. Esse modo de navegação deixa ao leitor o livre arbítrio, dá a ele o comando sobre a rota que vai traçar. E, quando assume o poder da escolha, ele é seu próprio editor.

Fora da rede, no mundo real (se é que a distinção ainda cabe), nossas escolhas são mais limitadas. No mercado, por exemplo, antes de fazer sua própria opção de compra, o sujeito se depara com escolhas feitas previamente por quem produziu um determinado bem. Há nisso uma tentativa de encontrar um padrão que aproxime ou adeque o bem ao gosto ou à necessidade da clientela. O desejo do consumidor está quase sempre à mercê da escolha prévia de um especialista ou submetido a pacotes que pretendem representar uma média de mercado. Ou seja, por trás de um balcão também há um editor.

Antes da internet, o acesso à informação seguia por esse caminho. Ao comprar uma revista ou um jornal, adquiríamos um pacote. Nosso interesse poderia ser específico, mas nos obrigávamos a levar o pacote completo. Havia somente duas opções: era tudo ou nada.

A internet inverteu a lógica. Ao fragmentar todo o seu conteúdo e criar laços entre os fragmentos, a web tornou a ideia do pacote obsoleta. O leitor pode determinar sua experiência de navegação, como se fosse o único consumidor de toda a informação disponível.

Mesmo assim, nos primórdios da internet, muitos sites e portais de informação viam no link externo a porta por onde perderiam seus leitores. Os diques para conter a onda pareciam simples, bastava não dar links externos que a audiência se manteria por mais tempo nos limites do seu domínio. Não contavam com a astúcia do leitor. Ele já sabia como chegar diretamente às fontes da informação. Essas fontes tinham agora um canal próprio, que fala diretamente com o público, sem necessariamente a intermediação de um veículo de mídia. Com as redes sociais, esses canais se multiplicaram exponencialmente e os links se disseminaram pela rede, divulgados e compartilhados por todos os participantes.

Perdida a batalha do link, a esperança para a antiga mídia renasceu com os primeiros tablets. O modelo fechado proposto pelos aplicativos parecia a redenção da indústria: uma única porta de acesso, sem saídas laterais, links internos e a possibilidade de colocar uma bilheteria na porta.

Mas os tempos mudaram e a esperança agora morre antes. O modelo de pacote fechado proposto pela mídia, com informações selecionadas e classificadas por um editor, que reproduz com fidelidade os conteúdos publicados nas versões impressas, que recupera os modos lineares de navegação, que obedece à periodicidade do meio offline, agrega algum conteúdo multimídia e não parece estar preocupado com a experiência de uso do leitor não vingou.

No mundo dos tablets, quem emergiu foram os agregadores. Não aqueles antigos serviços que agregavam feeds de RSS, como Netvibes. As estrelas agora são novos e modernos aplicativos, como Flipboard, que aliam design com informação oriunda de múltiplas fontes, principalmente do que é compartilhado pelas pessoas que estão na rede de relacionamentos do leitor, nas redes sociais. É o fascínio da descoberta impulsionado por um conteúdo cuja reputação e relevância é dada por pessoas a quem seguimos e, via de regra, conhecemos e respeitamos. O leitor e seus amigos são os editores.

Mas os tempos mudam rapidamente. Em março de 2011, o Zite inaugurou uma nova geração de aplicativos agregadores. Ele também tem uma interface simples, design enxuto e é configurado para colher links da rede de relacionamentos do usuário e exibir no aplicativo informações classificadas por temas selecionados previamente pelo leitor.

A diferença é que a partir da configuração inicial, há uma sofisticada engenharia que trata a informação antes dela ser exibida nas telas do iPad e iPhone. O Zite se vale da inteligência artificial para chegar a níveis impressionantes de personalização.

Funciona mais ou menos assim. Com a ajuda do Worio, um mecanismo de busca contextual, as urls compartilhadas nas suas redes de relacionamento na web começam a ser coletadas pelo Zite e a elas são associados uma série de metadados que ajudam a classificar os conteúdos. Dessa safra, o sistema descarta o que é spam e, em seguida, associa as urls aos usuários que as compartilharam. Cada usuário tem sua reputação medida, considerando número de seguidores e o nível de compartilhamento e RTs que seus posts alcançam na rede. O sistema combina, então, as reputações dos usuários que compartilharam o link e cria uma espécie de ranking de urls. As melhor classificadas podem ser exibidas na tela do usuário, desde que atinjam uma pontuação mínima, um valor que define o interesse que cada leitor terá pelo tema.

Já na tela do Zite, o sistema aprende com a experiência do usuário e vai redefinindo os critérios de exibição a partir dela. Ele mapeia o conteúdo e diferencia o que o leitor acessou, o que compartilhou, o que guardou para ler mais tarde e o que deixou de clicar para entender mais precisamente o interesse do usuário. Além disso, a cada link acessado, o leitor pode informar ao sistema se o conteúdo foi relevante ou não e selecionar numa lista de tags associadas ao conteúdo os temas e as fontes que o Zite deve considerar como de seu interesse.

A personalização melhora continuamente a oferta de conteúdo. Ou seja, duas contas com a mesma configuração podem se tornar muito diferentes em pouco tempo.

Foi entendendo a essência da internet que o Zite se transformou numa espécie de browser inteligente. Aliou a busca exata ao fascínio da descoberta e resgatou uma das principais características da internet, a personalização, que dá ao leitor a ideia de que ele é único, que tudo gira em torno de seu interesse, que ele é seu próprio editor.

Em agosto de 2011, cinco meses depois de lançado, o Zite foi comprado pela CNN.

A mídia perdeu o papel principal. O que suas marcas irão representar agora?

Há uma mudança radical em curso na comunicação que fará com que os atores atuais assumam papéis diferentes num futuro próximo. O ensaio dessa ópera está aberto ao público e quem possui um tablet já pode ocupar o melhor lugar para assisti-lo.

Para exemplificar esse cenário, vejam a imagem ao lado, reprodução da tela de abertura de um agregador, o Evri. Como qualquer outro agregador, ele organiza em pastas o conteúdo que me oferece para ler. Essas informações são provenientes de diversas fontes e a origem nesse caso é secundária, o que determina a classificação do conteúdo que me é oferecido é o tema, o assunto, definidos pelo interesse pessoal e configurados pelo leitor ao iniciar o aplicativo. Alguns agregadores, como Flipboard e principalmente o Pulse, dão um peso um pouco maior para as fontes, mas essa não é a regra.

Esse cenário só é possível graças a uma forte característica da internet: a fragmentação. Ao debulhar os links e reclassificá-los, os agregadores, mas também a internet inteira, tiram do veículo que produziu a informação, o protagonismo das cenas. A marca vira coadjuvante.

Com o crescimento da base de tablets, tudo leva a crer que essa peça ficará em cartaz por uma longa temporada. A mudança de eixo nesse cenário se estabelece a partir da perda do protagonismo do que cada vez menos se pode chamar de mídia. Os veículos, tal como os conhecíamos, já não conseguem mais exercer esse papel com a mesma desenvoltura. Eles já não são meio, são cada vez mais produtores de conteúdo somente. O meio, a distribuição, é um papel desempenhado por novos atores. E quem dirige o espetáculo é o público. Ele escreve e reescreve seu roteiro a qualquer tempo.

O desafio para a gestão das marcas que produzem conteúdo é enorme nesse cenário. Além de perder o protagonismo, há um cisne negro assombrando o personagem: a marca divide os créditos com o sujeito que produziu a informação, repórter e veículo começam a ter o mesmo peso. Para o jornalista é uma oportunidade de ouro; para a marca não chega a ser uma questão de sobrevivência, mas de valor.

Os gestores terão que buscar novas alternativas para recuperar o valor perdido de suas marcas, se é que isso será possível. Associá-las a nichos e temas e formar comunidades em torno delas é uma possibilidade, mas imagino que para encontrar um novo papel a altura, o empresário terá que entender primeiro como as relações se estabelecem no ambiente dessa nova ribalta.

Toda a informação do mundo sob medida para um único leitor: você

Quando vai às compras, antes de fazer sua própria opção, você se depara com escolhas já feitas por quem produziu um determinado bem. Há nessas escolhas prévias uma tentativa de encontrar um padrão que aproxime ou adeque o bem ao seu gosto ou a sua necessidade. Num restaurante, se quiser pedir um vinho, é possível que sua primeira atitude seja procurar entre os comensais alguém que divida uma garrafa. Isso porque alguém definiu antes que o padrão para o vinho deveria ser uma garrafa de 750 ml. Se não encontrar um parceiro, é possível que você opte por outra bebida,o que não o deixará totalmente satisfeito. Ainda no restaurante, as opções do cardápio dificilmente virão à mesa na quantidade exata de seu apetite ou somente com ingredientes que você aprecie. Há inúmeros outros exemplos. Sua necessidade está quase sempre à mercê de pacotes preparados por pessoas que são especialistas ou que tentam adequá-los a uma média de mercado. Ou seja, tudo passa previamente por um editor.

O consumo de informação segue uma linha parecida. Ao comprar uma revista ou um jornal, você leva um pacote. Seu interesse pode ser somente o noticiário de política, mas você se obriga a levar os classificados de imóveis; mesmo que queira só saber o que passa no cinema, se obriga a levar o noticiário de esportes, muitas vezes com um destaque para um time que nem é o seu.

A internet, no entanto, segue uma lógica inversa. Ao fragmentar todo o seu conteúdo, a web permite ao próprio consumidor a escolha do que ele vai acessar e abolir a ideia do pacote, se ele assim desejar. O leitor tem livre arbítrio e o poder para fazer suas escolhas, determinar sua experiência de navegação, como se fosse o único consumidor de toda a informação disponível. Ele pode optar por:

  1. navegar por uma internet fragmentada, sem hierarquia, em que um link leva a outro, sem compromisso com marcas;
  2. acessar a rede pelos portais, que tem conteúdos selecionados e hierarquizados por um editor, mas que ainda garantem ao leitor algumas escolhas. Cabem aqui os conteúdos selecionados por curadoria;
  3. entrar nos ambientes fechados de edições restritas ou em aplicativos, que, no caso dos veículos de informação, imitam a experiência analógica, com conteúdo, hierarquia e ordem pré-definidos por um editor. Nesse caso, resta ao leitor somente uma decisão: ler ou não ler.
Flipboard para iPhone

O fantástico da internet é que essas três experiências não são excludentes. Pelo contrário. Elas podem ser combinadas a qualquer momento, dependendo do gosto do leitor. A combinação é ótima porque a navegação aleatória pode nos afastar de temas importantes que o jornalismo consegue filtrar; o acesso pelo que foi filtrado pode diminuir o fascínio da descoberta de conteúdos produzidos por milhões de fontes diferentes.

A lógica da internet e as experiências diversas de navegação foram bem absorvidas por um serviço já disponível na web antes da chegada dos tablets, mas que ganhou maior relevância com a popularização dos computadores de mão: os agregadores. Esses aplicativos que dão ao leitor o poder de escolha de fontes e temas de seu interesse e exibem os conteúdos em formatos de revistas digitais estão se transformando nos novos portais de ingresso à internet.

Agregadores como Netvibes, Google Reader, Feedly, Evri e muitos outros já eram bem conhecidos, mas usados por um público com mais intimidade com a web, antes da chegada dos tablets. O lançamento do iPad foi a base para que os agregadores mostrassem o potencial desse tipo de serviço. O Flipboard foi o primeiro a transformar os links em uma revista digital atrativa, fácil de ler e de compartilhar. Ou seja, buscou no impresso a beleza gráfica e não a experiência de uso. Não tardou e o serviço começou a fechar parcerias com veículos de comunicação interessados em gerar tráfego para seus sites. O Zite, um serviço mais recente, que se apoia na experiência e nos gostos do usuário para oferecer um conteúdo cada vez mais adequado ao leitor, veio depois. Em 2011, a CNN, interessada na tecnologia de personalização por trás do aplicativo, comprou o Zite por US$ 20 mi.

Para os tablets já há muitas opções de agregadores [ou Social Readers] além do Flipboard e Zite. Evri e Feedly criaram suas versões para tablet e surgiram outros como Livestand, Flud, Pulse, Trove, Smartr News, Trapit e Spatik.

Conforme amadurece a experiência de uso, os leitores vão ficando mais confortáveis com a personalização e, ao descobrir suas vantagens, começam a aproveitar melhor o tempo usado para navegar na internet para descobrir conteúdos de seu interesse produzidos por fontes nem sempre conhecidas, o que torna a experiência mais fascinante.

O sucesso dos agregadores está no resgate de uma das características mais fortes da internet, a personalização, que dá ao leitor a ideia de que ele é único, de que todos estão falando com ele e para ele. Coisa que a mídia de massa teve dificuldades para entender. Será tarde demais?