Aplicativo de Veja está na direção certa, mas no meio do caminho

Página de abertura do aplicativo Veja 24 horas

Veja.com está dando acesso gratuito nesta semana para o aplicativo 24 horas, que roda em iPads e iPhones. A justificativa pra a gratuidade é a semana que envolve uma efeméride: o dia da secretária. Não estranhe, o aplicativo está sendo vendido como uma espécie de secretária pessoal digital. Mas é outra coisa.

A ideia de 24 horas é funcionar como despertador, agenda de compromissos e aniversários, mas também site, rádio e jornal e tudo isso com a possibilidade de personalização. Na prática, você pode usar assim: define no aplicativo o horário em que quer ser acordado e vai dormir. Na hora certa, seu iPhone ou iPad toca uma música (que você escolheu) e a partir daí você recebe informações por texto e/ou voz com seus compromissos do dia, o clima lá fora e as principais últimas notícias de Veja.com. Como se trata de um aparelho móvel, você o carrega para o banheiro, para a mesa do café da manhã e até para o carro. E pode fazer isso em outros horários do dia. Isso não parece um rádio? Sim, mas é muito mais.

O acesso desse tipo de aplicativo às suas informações pessoais no smartphone ou no iPad e a sua conta de Facebook, dá a ele uma outra dimensão, a da personalização, uma das grandes vantagens da era digital.

O grande mérito desse aplicativo é ter sido pensado não como um produto de mídia, mas um produto com mídia, o que me leva a desconfiar da gênese. Não parece ter sido algo criado dentro de uma Redação. As Redações comumente pensam para dentro de seu ambiente, não se livram facilmente de seus vícios e convicções, este foi criado pensando no usuário.

Por tudo isso, considero este aplicativo uma primeira boa tentativa no Brasil de conciliar um produto digital de empresa de mídia com a experiência plena de mobilidade.

Ditas as boas coisas, é necessário também mencionar a precariedade do funcionamento do aplicativo. Não sei como ele roda nas versões anteriores do sistema operacional da Apple, mas no iOS6 ele é lento e fecha algumas vezes, o que é básico para manter o interesse do usuário.

O aplicativo é um avanço, mas é ainda tímido na personalização das informações (imagino que aqui a Redação deu seu pitaco). Eu poderia, por exemplo, definir os temas noticiosos que me interessam, não as notícias definidas pelos editores do site ou selecionadas pelo único critério do que é mais recente. Ou os colunistas e blogs que mais me agradam. Ou saber as condições de tráfego do meu caminho habitual para o trabalho. Ou…

Mesmo no meio do caminho, o 24 horas sinaliza uma direção correta, engrena a informação no cotidiano do usuário, agiliza o dia e oferece alternativa de sentidos. É uma esperança de que possamos chegar a algum lugar.

Niiiws, o aplicativo para iPad que agrega conteúdos de jornais brasileiros

Ler notícias em português em aplicativos agregadores para tablets ou smartphones não é uma experiência fácil e prazenteira. Para acessar notícias publicadas no Brasil nesses agregadores, o leitor até agora estava limitado às informações compartilhadas em sua rede de relacionamento, principalmente no Twitter e Facebook, e relacionadas em agregadores como Flipboard, por exemplo. Melhor, mas nem sempre mais fácil, era registrar o RSS de suas fontes preferidas em português em aplicativos como Feedly ou Google Currents. Tudo muito longe da experiência de um Zite.

Ontem recebi o link para fazer o download do Niiiws, um aplicativo que tem criado versões para diferentes países e lançou uma versão brasileira que se propõe a oferecer as “notícias mais relevantes dos jornais brasileiros no iPad”.

O aplicativo separa os conteúdos por temas, reúne conteúdo dos principais sites de jornais brasileiros (não percebi a presença d’O Globo) e, bom para os sites, em vez de reproduzir o conteúdo das páginas num template próprio, o agregador se transforma numa espécie de browser e abre a página do site abaixo de uma barra do Niiiws. Imagino que nesse caso, contabilize audiência e a exibição dos anúncios presentes nas páginas originais.

O problema começa na seleção das informações. O Niiiws não distingue, a princípio, conteúdos de interesse mais amplo das notícias regionais. Assim, notícias de interesse local disputam espaço com informações nacionais e internacionais. Isso não seria um problema se houvesse a possibilidade de fazer escolhas prévias de veículos, temas e local de meu interesse. Essa configuração é possível, mas somente quando o leitor acessa uma determinada notícia. No contexto da notícia, e de uma maneira discreta, o Niiiws se aproxima do Zite e oferece a possibilidade de “pedir” mais informações, de dizer ao software que quer receber dali em diante mais conteúdos de um determinado veículo, tema ou – boa novidade – do autor do texto.

Se o aplicativo funcionar como funciona o Zite, teremos algo muito bom nas mãos, mas o leitor precisará fazer um polimento, uma lapidação, para personalizar o aplicativo e torná-lo útil e necessário.

Há duas coisas que não dependem do leitor, mas que o software precisará fazer para melhorar o Niiiws. Uma delas é trazer junto com a informação a data e o horário em que as notícias foram publicadas (acessei uma notícia na Home que já estava publicada há quase 24 horas pensando tratar-se de algo do dia). Outra é fazer um filtro que identifique o veículo ou o conteúdo mais relevante para uma determinada informação. Sobram fotos do ator Michael Clarke, falecido no dia 3 de setembro, e da derrière da Mulher Pêra (com acento/assento), candidata a uma vaga na câmara de vereadores de São Paulo. Como os assuntos foram destaque em vários veículos, o aplicativo empilha mais do mesmo na tela do iPad.

A mídia perdeu o papel principal. O que suas marcas irão representar agora?

Há uma mudança radical em curso na comunicação que fará com que os atores atuais assumam papéis diferentes num futuro próximo. O ensaio dessa ópera está aberto ao público e quem possui um tablet já pode ocupar o melhor lugar para assisti-lo.

Para exemplificar esse cenário, vejam a imagem ao lado, reprodução da tela de abertura de um agregador, o Evri. Como qualquer outro agregador, ele organiza em pastas o conteúdo que me oferece para ler. Essas informações são provenientes de diversas fontes e a origem nesse caso é secundária, o que determina a classificação do conteúdo que me é oferecido é o tema, o assunto, definidos pelo interesse pessoal e configurados pelo leitor ao iniciar o aplicativo. Alguns agregadores, como Flipboard e principalmente o Pulse, dão um peso um pouco maior para as fontes, mas essa não é a regra.

Esse cenário só é possível graças a uma forte característica da internet: a fragmentação. Ao debulhar os links e reclassificá-los, os agregadores, mas também a internet inteira, tiram do veículo que produziu a informação, o protagonismo das cenas. A marca vira coadjuvante.

Com o crescimento da base de tablets, tudo leva a crer que essa peça ficará em cartaz por uma longa temporada. A mudança de eixo nesse cenário se estabelece a partir da perda do protagonismo do que cada vez menos se pode chamar de mídia. Os veículos, tal como os conhecíamos, já não conseguem mais exercer esse papel com a mesma desenvoltura. Eles já não são meio, são cada vez mais produtores de conteúdo somente. O meio, a distribuição, é um papel desempenhado por novos atores. E quem dirige o espetáculo é o público. Ele escreve e reescreve seu roteiro a qualquer tempo.

O desafio para a gestão das marcas que produzem conteúdo é enorme nesse cenário. Além de perder o protagonismo, há um cisne negro assombrando o personagem: a marca divide os créditos com o sujeito que produziu a informação, repórter e veículo começam a ter o mesmo peso. Para o jornalista é uma oportunidade de ouro; para a marca não chega a ser uma questão de sobrevivência, mas de valor.

Os gestores terão que buscar novas alternativas para recuperar o valor perdido de suas marcas, se é que isso será possível. Associá-las a nichos e temas e formar comunidades em torno delas é uma possibilidade, mas imagino que para encontrar um novo papel a altura, o empresário terá que entender primeiro como as relações se estabelecem no ambiente dessa nova ribalta.

Uma solução do Kindle para o jornalismo

A indústria da mídia contribuiu raramente com soluções para a comunicação nos meios digitais. Esse papel tem sido cumprido com sucesso pela indústria da tecnologia e até pela publicidade. Entre as causas para isso estão normalmente o desconhecimento do meio, o apego aos formatos tradicionais que deram certo e o receio de contribuir com – ou apressar – a canibalização do negócio offline. O risco, nesse caso, não está somente na manutenção das iniciativas online, mas também na sobrevivência da empresa. Quando isso está em jogo, o pé direito tende para o freio.

A publicação recente das primeiras edições de revistas para tablets é um exemplo disso, mas poderia não ser. As publicações migraram para a tela do iPad levando consigo a mesma ideia de edição, de pacote, que dá resultado nas bancas e ainda sensibiliza leitores a renovarem suas assinaturas por mais um período. À essa reprodução, acrescentaram algum conteúdo em outras linguagens, sobretudo vídeo, e uma ou outra firula piscante.

Desculpem se insisto no tema, mas a Apple Store não é a banca e o iPad não fica na sala de estar, ele segue com o dono. A ideia de pacote, com mix de assuntos e periodicidade predefinida, está na contramão da corrida digital pelo fragmento, pela especialidade. É o atacado contra o varejo; é entregar a cesta completa para quem quer somente uma noz; é revirar no magazine quando há um especialista na porta ao lado.

Um produto que nunca vingou na indústria editorial, mas que cai como uma luva para os meios digitais, aparece agora nas prateleiras virtuais da Amazon e os blogs de comunicação têm falado dele nesses últimos dias. Kindle Singles pode não ser a solução, mas está no meio de um dos caminhos que levam até ela. Este é o nome de uma série de textos curtos ou artigos longos que a Amazon oferece em seu site. São aqueles textos que, no jargão da indústria livreira, não parariam em pé, referência a livros com menos de 70 páginas.

Comprei um desses singles: Gutemberg the Geek, de Jeff Jarvis, por indolores US$ 0,99, somente com um clique. Daria outro jeito para lê-lo se estivesse numa publicação maior que, por conta disso, demorasse mais tempo para download, trouxesse mais conteúdo que não me interessasse tanto e custasse obviamente mais caro.

A busca por Kindle Singles no site da Amazon traz mais de sete mil títulos, mas um deles me chamou a atenção. Como sempre nesses caos, já há um manual para publicar este tipo de texto, vendido também a US$ 0,99, How to Publish and Sell Your Article on the Kindle: 12 Tips for Short Documents, um investimento relativamente baixo para quem precisa buscar conhecimento.

Para saber mais, leia estes dois posts de Clases de Periodismo:
Los ebooks pueden ayudar a que sobreviva el buen periodismo
El periodismo encuentra su lugar en los ebooks (com um ótimo Storify sobre o assunto)

Safari é o aplicativo mais importante do iPad

O browser é o aplicativo mais importante do iPad. Cheguei à essa conclusão depois do primeiro mês usando o tablet da Apple. Na primeira semana fiz o download de vários aplicativos, gastei alguns dólares comprando apps e conteúdos; na segunda semana deixei a maioria de lado; na terceira comecei a usar mais o browser; finalizado o mês restaram poucos aplicativos que ainda chamam diariamente a minha atenção.

Pelo gráfico publicado nesta terça-feira pelo Business Insider, vejo que não estou sozinho. A minha experiência de uso é similar a de uma pesquisa publicada pelo BI. Embora no período entre novembro e maio haja uma queda no uso do browser, natural e esperada, pelo volume de aplicativos lançados diariamente, mais de 1/3 dos usuários ainda tem no Safari a principal aplicação para acessar conteúdos no iPad.

Se considerarmos que já há no mercado cerca de 10 milhões de iPads e que, muito em breve, ele será a maior fonte de tráfego mobile para nossos sites, é importante para quem desenvolve páginas ou produz conteúdo ter em mente que seus sites e o que está publicado neles deva considerar a exibição em tablets. Começar a testar isso é um primeiro passo. Produzir pensando no usuário mobile é o segundo.