Relive – a história revivida em tempo real

Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos
Walter Cronkite anuncia a morte de JFK há 50 anos

O público reconhece há muito tempo o valor dos acervos digitais ou digitalizados dos meios de comunicação. Para quem tem dúvida, sugiro um pequeno exercício: basta comparar o número de publicações em um dia com o número de conteúdos diferentes acessados no mesmo período. Se você não tem como confirmar isso, darei um número já medido em diversos veículos e que pode servir como uma média confiável: num período de 24 horas, para cada notícia produzida e lida nesse mesmo dia outras 60 do acervo são acessadas.

Se os leitores já percebiam essa riqueza, faltava aos jornalistas e aos meios de comunicação valorizarem aquilo que já não é mais notícia, mas é conteúdo, contexto e história.

A emissora americana CBS já havia oferecido em 2012, para os leitores de seu aplicativo para o iPad, a íntegra do célebre debate televisivo de 1960 entre Nixon e JFK na mesma tela em que reproduzia ao vivo o debate entre Barack Obama e Mitt Romney. No próximo dia 22 de novembro, o site da CBS News irá reproduzir na íntegra os quatro dias de transmissão da cobertura do assassinado de John Kennedy. Agora, 50 anos depois, os americanos poderão acompanhar minuto a minuto o fluxo de informações que se seguiu à morte do presidente americano. É a história revivida numa simulação de tempo real.

Assista: Sneak peek: As it Happened: John F. Kennedy 50 Years

O “Relive” não é uma novidade. Linhas do tempo no Twitter e no Facebook já recontaram a história do Titanic e da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Esta ainda está sendo contada no Twitter como se estivesse acontecendo hoje, agora.

Neste caso da CBS, tenho a esperança que os profissionais de comunicação despertem para o valor dos acervos. Acompanhar o trabalho dos colegas americanos e (re)ver Walter Cronkite em ação será excitante para os jornalistas e talvez coloque de vez o passado na agenda. Arrastar o conteúdo de um fato histórico para uma outra página do calendário é só uma das possibilidades do acervo. No cotidiano da elaboração da notícia, dos conteúdos, o acervo é um aliado do qual não se pode abrir mão. Na fragmentação da internet, o contexto é fundamental; Quando não há grades de programação e uma periodicidade a obedecer, a internet subverte a noção de tempo e exige a presença do acervo para situar o leitor e dar um melhor entendimento dos contextos.

Pena que a imprensa que tanto reclama quando o acesso a dados públicos é limitado a arquivos .PDF não tenha a mesma exigência com a facilidade de acesso aos seus próprios acervos. O descuido com a classificação dos arquivos, formatos, e a manutenção de acervos em bases distintas continua sendo uma barreira para os leitores. Quem sabe, em breve, se torne um desafio para os comunicadores.

A mídia perdeu o papel principal. O que suas marcas irão representar agora?

Há uma mudança radical em curso na comunicação que fará com que os atores atuais assumam papéis diferentes num futuro próximo. O ensaio dessa ópera está aberto ao público e quem possui um tablet já pode ocupar o melhor lugar para assisti-lo.

Para exemplificar esse cenário, vejam a imagem ao lado, reprodução da tela de abertura de um agregador, o Evri. Como qualquer outro agregador, ele organiza em pastas o conteúdo que me oferece para ler. Essas informações são provenientes de diversas fontes e a origem nesse caso é secundária, o que determina a classificação do conteúdo que me é oferecido é o tema, o assunto, definidos pelo interesse pessoal e configurados pelo leitor ao iniciar o aplicativo. Alguns agregadores, como Flipboard e principalmente o Pulse, dão um peso um pouco maior para as fontes, mas essa não é a regra.

Esse cenário só é possível graças a uma forte característica da internet: a fragmentação. Ao debulhar os links e reclassificá-los, os agregadores, mas também a internet inteira, tiram do veículo que produziu a informação, o protagonismo das cenas. A marca vira coadjuvante.

Com o crescimento da base de tablets, tudo leva a crer que essa peça ficará em cartaz por uma longa temporada. A mudança de eixo nesse cenário se estabelece a partir da perda do protagonismo do que cada vez menos se pode chamar de mídia. Os veículos, tal como os conhecíamos, já não conseguem mais exercer esse papel com a mesma desenvoltura. Eles já não são meio, são cada vez mais produtores de conteúdo somente. O meio, a distribuição, é um papel desempenhado por novos atores. E quem dirige o espetáculo é o público. Ele escreve e reescreve seu roteiro a qualquer tempo.

O desafio para a gestão das marcas que produzem conteúdo é enorme nesse cenário. Além de perder o protagonismo, há um cisne negro assombrando o personagem: a marca divide os créditos com o sujeito que produziu a informação, repórter e veículo começam a ter o mesmo peso. Para o jornalista é uma oportunidade de ouro; para a marca não chega a ser uma questão de sobrevivência, mas de valor.

Os gestores terão que buscar novas alternativas para recuperar o valor perdido de suas marcas, se é que isso será possível. Associá-las a nichos e temas e formar comunidades em torno delas é uma possibilidade, mas imagino que para encontrar um novo papel a altura, o empresário terá que entender primeiro como as relações se estabelecem no ambiente dessa nova ribalta.

Como o jornalista deve tratar o viral

A sensação da semana nas redes sociais é o polêmico vídeo Kony 2012 publicado no Vimeo há duas semanas (12 milhões de visitas até este momento) e no YouTube no início desta (26,6 milhões de visitas até este momento). No Vimeo, o vídeo pulou de 8 visualizações no domingo para 58 mil na segunda e 2,7 milhões na terça. Impressionante. Para quem não viu, o vídeo de 30 minutos está abaixo, mas continue lendo depois.

KONY 2012 from INVISIBLE CHILDREN on Vimeo.

O vídeo encanta e arrebata plateias no mundo inteiro, mas, é claro que a construção hollywoodiana do documentário tem sido muito criticada e questionadas a causa e algums informações contidas no vídeo. Há, obviamente, os que o defendem.

Não quero aqui tratar da polêmica, mas frisar o papel do jornalista diante de um fenômeno arrebatador e de opiniões tão díspares. O que faz o jornalista? Esclarece. Dá espaço para ambas as partes. Tenta trazer alguma luz ao debate apaixonado.

É o que faz a seção Reality Check, do Guardian. Um live blogging que vai acompanhando a repercussão do vídeo na internet, trazendo informações para o que não está esclarecido, ajudando a entender a situação e exercendo o papel que o jornalismo deve ter nesse universo cada vez mais social que é a comunicação. Mirem-se no exemplo.

Leia também: O Twitter, o seu direito de opinião e a responsabilidade do jornalista nas redes sociais

Monitorar comentários é responsabilidade de quem assina a matéria

Redes sociais como Twitter e Facebook sequestraram parte das discussões que antes se davam num ambiente pouco considerado nas Redações: o dos comentários feitos pelos leitores. E aquilo que já era secundário foi se tornando cada vez menos relevante. Parte da mídia liberou totalmente a publicação, sem aparentemente se preocupar com o que ali está registrado; alguns sites retiram a área de comentários quando, vejam só, os temas são muito polêmicos; e uma outra parte mantém os comentários sob moderação.

Na verdade, mesmo os que parecem querer se resguardar, os que publicam comentários somente após uma etapa de moderação, o fazem mais para se proteger do que para garantir um bom debate e a fidelidade das informações que por ali aportam. Não é recomendável que um grupo de pessoas, que não estão envolvidas com o que foi publicado e na maioria das vezes desconhecem o contexto, tenha sob sua responsabilidade a decisão do que pode ser levado a público.

A má notícia que tenho insistido em divulgar, principalmente nas minhas aulas no Master em Jornalismo Digital, é que quem publica é eternamente responsável pelo que escreveu e pelo que o público postou em sua área de comentários. A manifestação do público é parte integrante do conteúdo. Uma informação incorreta publicada por um leitor deve ser esclarecida. Nenhuma informação errada deve permanecer sem o devido esclarecimento nessa área. E isso é melhor feito quando quem participou da apuração monitora a participação do público.

Obviamente, essa atenção do repórter deve ser compensada com ferramentas que permitam a ele monitorar com facilidade e sem perda de tempo. Essa monitoração deve ser reativa, com intervenções pontuais, para que o repórter não se envolva em discussões desnecessárias. Esse envolvimento, que comecei a testar com sucesso em 2007 na Redação do clicRBS, é extremamente benéfico. Diante dos comentários dos leitores, o repórter se depara com inconsistências em seu texto, é cobrado por informações que estão ausentes, mas esclarece, dá uma atenção ao leitor e aos demais que virão, e pode divulgar outros conteúdos do próprio site que sejam relevantes.

Se você acha isso um sonho distante, algo inaplicável numa Redação, mire-se no exemplo do Washington Post. O site do Nieman Journalism Lab conta a experiência que o jornal está fazendo – WP experimenta uma nova arma na luta contra a trolagem: humanos. O Post tem seis pessoas encarregadas de fazer a moderação dos comentários postados por leitores e agora reforça a equipe com o staff da Redação. Coloca na linha de frente com o leitor quem efetivamente apurou ou se envolveu com a produção da notícia (veja uma delas na imagem acima). John de Nunzio, editor de interatividade do WP, explica na seção Ask the Post algumas das ações adotadas no jornal.

É difícil fazer uma medição, mas tenho a certeza de que a publicação que adota esse tipo de postura diante do leitor ganha a sua confiança. Traz de volta a discussão para o ponto de origem da informação e enriquece o conteúdo. E, em tempos bicudos como este para a mídia, é também um tento, já que marca uma diferença entre a publicação e os aplicativos impessoais que acabam subtraindo a audiência de quem gerou a informação.

O Twitter, o seu direito de opinião e a responsabilidade do jornalista nas redes sociais

No Brasil, todos são um pouco médicos, um pouco treinadores de futebol, conforme um dito muito popular. Nem uma coisa nem outra. A verdade por trás do ditado é que o brasileiro é um sujeito que tem opinião e gosta de manifestá-la. Isso não seria um problema se todos tivéssemos informação suficiente para produzir uma elaboração própria para os assuntos sobre os quais nos manifestássemos. Opiniões informadas. Não é assim, mas para o jornalista é hora de atuar com responsabilidade.

As redes sociais – e principalmente o Twitter – têm sido responsabilizadas pela disseminação de opiniões deformadas e, mais grave, de informação imprecisa, incorreta ou deturpada. Calma lá. O mundo mudou rapidamente, mas as pessoas nem tanto. Os “cidadãos comuns” ganharam alto-falantes, mas os processos que conformam suas opiniões e sua índole não mudaram desde que eles começaram a se manifestar na internet. Diferente de antes, há agora um espaço de convívio em que os defeitos e as virtudes podem eventualmente obter uma grande repercussão. Na maioria das vezes, nada provocam.

O Twitter, já escrevi aqui, mede o pulso da rede. E é o melhor lugar hoje para se abastecer de informação instantânea. Da notícia que brota, in natura, nos mais diversos lugares do planeta, direto da fonte, até os mais maldosos boatos. A função do jornalista é zelar pela boa informação. E seu papel no Twitter, mais do que disseminar links para gerar tráfego de audiência, é refutar a informação incorreta, enriquecer a informação inconsistente e ajudar a reformar a opinião deturpada. Esclarecer é a função eterna do jornalista, em qualquer meio. Na internet, ele pode espalhar a informação corretamente apurada com a mesma velocidade do boato e com a vantagem da credibilidade da sua marca pessoal.

Hashtag #RipCher que sugeria erradamente a morte de Cher

Acompanhar essa forte correnteza de informações é uma tarefa demasiadamente complexa, mas atentar para o que os TTs, os assuntos do momento, trazem à tona é uma obrigação. Basta clicar em uma das hashtags da lista para ver a afluência vertiginosa de tuítes. Nesse fluxo, boa parte dos tuítes revela que as pessoas estão boiando, à procura de alguém que as esclareça. O episódio da invasão do #Pinheirinho, a área ocupada, e agora desocupada, em São José dos Campos é exemplar. Enquanto a mídia atuante no Twitter estava preocupada com a promoção de seus links, os boatos ocuparam um espaço em que a verdade afundava. Os canais de jornalismo no Twitter deveriam atacar rapidamente a inverdade e o boato, deixar claro que o que corre nas timelines ainda não está confirmado, se este for o caso, que seus jornalistas estão averiguando os fatos denunciados etc.

O que quero dizer é que o Twitter, como qualquer outra rede social, não deveria ser somente uma ferramenta de marketing para os veículos de informação, online ou off-line. Entendido como um meio autônomo, o Twitter exige do jornalista o mesmo rigor na apuração e no esclarecimento dos fatos que estão sendo comentados. O jornalista deve agir com a agilidade do bombeiro, ele tem o dever de intervir quando a informação falsa ou não apurada corretamente está emergindo.

Não reconhecer seu papel nesse meio e o direito à opinião, mesmo quando deturpada, das pessoas que se manifestam pelo Twitter é um sinal de prepotência. Atribuir ao Twitter a responsabilidade pelo que as pessoas dizem é uma leviandade tão grande quanto disseminar informação imprecisa. E não ajuda a aperfeiçoar a opinião pública.

Leia também: Como o Twitter mudou o jornalismo

As cinco crises simultâneas dos meios de comunicação

Eric Scherer

O diretor de estratégia da AFP, Eric Scherer (foto), acredita que os meios de comunicação tradicionais estão enfrentando cinco crises simultâneas neste momento:

  • a econômica, que atinge direta ou indiretamente a todos;
  • a dos modelos de negócios tradicionais, que atinge mais fortemente os meios impressos;
  • uma crise de audiência decorrente da concorrência com os novos meios digitais;
  • uma crise de formação;
  • uma crise de autoridade decorrente da queda de prestígio da velha mídia

A íntegra do texto está em Looking at the future of news at the OECD, no Editorsweblog, mas eu vou me deter numa dessas cinco, que me parece ser condicional para melhor enfrentar as demais. Para Scherer, a formação é um problema gigantesco, que deveria ser corrigido imediatamente, mas os executivos das empresas de comunicação não estão suficientemente atentos a isso.

Esse talvez seja um dos grande empecilhos para o surgimento de soluções vindas da própria indústria da mídia. Por incrível que pareça, ainda estamos assistindo a simples transposição do modus operandi dos outros meios para as plataformas digitais.

Na produção de conteúdo, há avanços na convergência, mas pouco pensamos em multimídia enquanto narrativa; insistimos na infografia, mas patinamos na interatividade; reproduzimos conteúdos, mas somos pouco originais; beneficiamos o volume, desconsideramos a capacidade de oferecer caminhos para os usuários. As áreas comerciais vendem banners que não sustentam os negócios; as áreas de marketing não acompanham o comportamento da audiência.

Os modelos de negócio que conseguem gerar receita não foram criados pela mídia. Enquanto o Google criava os links patrocinados, a indústria da comunicação pensava unicamente em ocupar espaço na web. E essa política defensiva não faz sentido, na internet o espaço é infinito. E agora, enquanto as empresas voltam a pensar em conteúdo pago, deveriam pensar em como gerar a receita necessária para a viabilidade do negócio a partir do alto volume de audiência enquanto ele ainda não se fragmenta totalmente.

Para considerar esses aspectos é preciso reconsiderar também as crenças, entender que a experiência que acumulamos nos outros meios pode nos prejudicar a visão quando miramos um mundo em que os contornos não são nítidos e que aguarda pela chegada de profissionais que o compreendam e ajudem a desenhá-lo. Precisamos ter formação para os meios digitais em todas as hierarquias para não sentir saudade da crise daqui a algum tempo.